Menos vegetação e mais poluição: relação suicida

Quando foi elaborado o Relatório da UNESCO para a criação da RB do Cinturão Verde da Cidade de São Paulo, se avaliou em perto de 60% a capacidade da vegetação da região de SP em absorver o monóxido de carbono produzido na grande cidade pelas atividades humanas. Tais avaliações tomaram por base os índices e parâmetros do projeto FLORAM do Instituto de Estudos Avançados, USP.Hoje, dez anos depois, com mais destruição da cobertura verde e aumento da emissão de poluentes essa capacidade já se reduziu e começa a ficar comprometida. É obrigatório saber – e informar corretamente a coletividade - como essa relação progredirá diante da urbanização crescente que o Rodoanel induz.
Cantareira e SP: ventos carregados de poluentes afetam as matas


Exportando poluição

Exportar poluição para áreas de relativa pureza ambiental é outro aspecto que merece consideração e tem sido deixado de lado. O maciço da Serra da Cantareira, por exemplo, é área núcleo da Reserva da Biosfera e considerada a maior floresta urbana do planeta. Já há constatações científicas de que na vertente Norte deste maciço há ocorrência de chuva ácida principalmente por efeito da ação dos ventos carregados de poluentes vindos do sul-sudeste. Por outro lado, levantamentos controlados feitos por cientistas do Instituto Florestal revelaram uma situação preocupante: perto de 9% das árvores das áreas amostradas do Parque Estadual da Cantareira – que é uma Unidade de Conservação - (no local denominado Pinheirinho) estão mortas, muito provavelmente por efeito do bombardeio do coquetel de poluentes, tanto os controlados pelos órgãos responsáveis como os não controlados.  Mas a grande pergunta é: e se considerarmos as árvores “doentes”? O levantamento do IF fala apenas em "árvores vivas" e "árvores mortas". E as doentes? Há tecnologia moderna para detectar este fenômeno, e este estudo deveria ser feito antes de qualquer decisão que comprometa a sanidade vegetal do maciço da Cantareira.  E se o traçado do Rodoanel se aproximar do maciço, conforme o previsto, com sua carga poluente? Não há nenhum estudo sobre dispersão de poluentes, e não dá para negar que serão exportados das áreas muito saturadas para as de relativa pureza ambiental.


A sanidade do maciço da Cantareira

Como fica isto diante da legislação em vigor que considera crime ambiental a destruição da vegetação nativa, sobretudo a existente nas Unidades de Conservação? O Poder Público tem consciência disto? A população consente que sua qualidade de vida seja mais afetada ainda? Está informada? Outra contradição: ao invés de o Poder Público conter as manchas da poluição, acaba por ampliá-las para áreas não afetadas ou minimamente afetadas. Sob perspectiva mais ampla podemos – e devemos – perguntar: como fica este fenômeno diante dos modernos conhecimentos de "indicadores biológicos" ou "organismos sentinelas", ou "bioindicadores"? (organismos mais sensíveis às agressões, que funcionam como alerta) Ou seja, se o organismo vegetal adoece e morre, qual o efeito no organismo humano?

Cargas perigosas na periferia

A verdade é que desde os seus primórdios os estudos do Rodoanel vêm tratando a questão de qualidade de vida, saúde ambiental e saúde humana com surpreendente simplismo (ou falácia?), quando não com um oportunismo primário inadmissível num Governo que diz trilhar o caminho da Ética. O documento “Via Perimetral Metropolitana” (atual Rodoanel) lançado em 22 de junho de 1989, pelo então Governador Orestes Quércia, e elaborado pela Secretaria de Habitação e Desenvolvimento, já dizia o seguinte: “Custos e Benefícios do Empreendimento: diminuição sensível do tráfego de cargas perigosas, de alto risco, que hoje trafegam pelo centro”.   

Trecho Oeste do Rodoanel:  perímetro urbano de Caieiras
Então se retira do centro este alto risco e joga-se sobre a região de mananciais, sobre a Serra da Cantareira e sobre as populações de Carapicuiba, Embu, Taboão da Serra, Barueri e de toda a periferia?
Aliás, o caminho já está sendo preparado – e até serviu como propaganda política: segundo informação de sua Assessoria de Imprensa, o Governo do Estado de São Paulo está liberando R$ 8.098.159,65 a serem divididos entre oito cidades da Grande SP para execução de obras de infraestrutura. São elas: Arujá, Carapicuíba, onde estão previstas nove obras, Embú, Francisco Morato, Guarulhos, Itaquaquecetuba, Poá e São Lourenço da Serra. Embu, por exemplo, terá R$1 milhão do Tesouro do Estado: 640 mil para o recapeamento da  avenida  Rotary e  360 mil para a canalização do Córrego Tomás Antonio Gonzaga. Francisco Morato receberá R$ 46.191,82 que deverão ser aplicados em obras de melhorias e na recuperação do acesso ao  seu terminal de passageiros. Nessas cidades muitos acreditam que o Rodoanel trará “progresso” e benefícios.  
Hoje, nas marginais, trafegam mais de 600 cargas catalogadas como perigosas e de risco. Serão desviadas para mananciais e áreas não degradadas, com a agravante de que as condições dos caminhões que rodam por nossas estradas geralmente passam longe das medidas de segurança.  Os riscos são reais.
De maneira bem objetiva: a população tem conhecimento de que estão jogando sobre sua cabeça estas bombas de efeito imediato e retardado? Consente?  

Qualidade do ar e saúde

Mas é em relação à saúde humana que o problema tange o inaceitável. A análise do "Relatório de Impacto Ambiental do Rodoanel Metropolitano de São Paulo - Trecho Oeste" produzida pela FACULDADE DE SAÚDE PÚBLICA DA USP é definitiva: “A qualidade do ar se apresenta como fator negativo em locais próximos ao traçado. Devido ao aumento de veículos, haverá uma eliminação de gases poluentes e conseqüente alteração nas condições do ar da região”. Já o EIA/RIMA produzido pela Protran Engenharia para a Dersa não diz nada a respeito. No município de Caieiras, por exemplo, onde termina o lote 6 do Trecho Oeste, o movimento de veículos já aumentou significativamente. 
 

 

 

Caieiras/Mairiporã: aumento do tráfego nas estradas da Cantareira

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