Saúde ambiental é condição para a saúde humana  

Visto do alto São Paulo é como uma chaga que se alastra; por dentro é um gigantesco organismo doente

Especialistas em saúde pública alertam que a poluição tem grande incidência na causa da morte de boa parcela da população paulistana, em particular dos portadores de moléstias respiratórias e cardiovasculares: na cidade, o veículo automotor é a maior fonte poluidora. 
 

Dados estatísticos controlados revelam um aumento em cerca de 25% nas internações hospitalares após cada surto agudo de poluição atmosférica, e que estas se relacionam entre outros aspectos, às neoplasias pulmonares e ao câncer de pele.  
Está cientificamente comprovado que um habitante da grande cidade, vivendo nesse ambiente altamente contaminado, só pelo efeito das moléstias e complicações respiratórias tem sua expectativa de vida diminuída em cerca de um ano e meio a dois anos. 
Esta avaliação foi feita pelo especialista em Saúde Pública, Dr. Paulo Saldiva, do Laboratório de Poluição da USP, em reportagem da TV Globo (SPTV), em 5 de agosto deste ano. Morar no centro de São Paulo equivale a fumar 10 ou 20 cigarros por dia, ele também informou em sua entrevista.  
Se a este número se somarem os óbitos devidos a moléstias cardiovasculares e cardiopatias é provável que tal expectativa de vida seja diminuída em 5 anos.


Periferia de SP: laje sobre laje  
 
Uma cidade doente gera filhos doentes  
 
Em fevereiro de 2001, no laboratório realizado na sede da Reserva da Biosfera e co-patrocinado pela UNESCO foram citadas as causas mais freqüentes de mortalidade relacionadas a fatores ambientais: neurose (estresse), hipertensão arterial sistêmica, coronariopatias, doenças respiratórias, dermatites, câncer de pele e doenças infectoparasitárias. O Seminário realizado pelo INCOR da USP, também em 2001, revelou dados surpreendentes: pesquisa tomando por base um universo superior a 90 000 óbitos na Região Metropolitana de São Paulo revelou alta taxa de mortalidade de pacientes portadores de deficiências cardiovasculares correlacionadas aos poluentes: monóxido de carbono, componentes de enxofre e componentes do nitrogênio, todos presentes na atmosfera das áreas analisadas.  
SP: mortalidade relacionada a fatores ambientais
Além disso, sob a ação do sol forte, esses componentes reunidos formam o "mau ozônio", como já foi definido por especialistas em saúde e poluição.
No exterior, as pesquisas relativas à poluição atmosférica pela queima de combustíveis fósseis e sua implicação na saúde humana avançam e trazem dados alarmantes no depoimento do jornalista especializado Washington Novaes em matéria publicada no OESP, em 8 de junho de 2001: “Segundo o Health Effect Institute, de Cambridge – que reuniu vários estudos de saúde feitos nos últimos anos -, não há  dúvida de que a emissão de particulados pela queima de combustíveis fósseis representa grave ameaça para a saúde pública. No Japão, após 11 anos de batalha, a Justiça reconheceu  que as emissões por veículos e indústrias têm fortes efeitos na saúde humana. Por isso, Governo e 18 indústrias terão de pagar às vítimas indenizações que chegam a U$$ 2,7 milhões. Mais ainda, o Governo terá de implementar políticas e providências para que os níveis de emissões se tornem adequados a padrões recomendáveis. A decisão judicial foi também influenciada por um estudo da Escola de Saúde Pública da Universidade de Chiba, segundo o qual crianças residentes perto de uma escola a 50 metros de uma rodovia de alta densidade de tráfego apresentaram níveis de bronquite asmática entre 3,7 (meninos) e 5,9 (meninas) vezes mais alto que a média. Em São Paulo mesmo, tese de mestrado da bióloga Fernanda Alves Cangerana, na Faculdade de Saúde Pública da USP, mostrou há poucos meses a correlação entre os níveis mais altos de ozônio em alguns distritos (por causa da poluição atmosférica) e a maior incidência de câncer da laringe e da pele, principalmente”. 
São fatos, não há como contestá-los. Os Estudos de Impacto Ambiental precisam esclarecer questões como estas, utilizando não só os parâmetros clássicos de concentração e dispersão de poluentes e seus limites de tolerância, reconhecidamente ultrapassados, como também e, sobretudo, os dados mais atualizados nessa área: os bioindicadores, por exemplo, já aceitos cientificamente.