|
Ação
e resistência dos cidadãos |
![]() |
A força
da comunidade bem informada pode mudar o rumo dos acontecimentos e fazer História
em prol da Vida. No seu sentido mais amplo e profundo, evolucionário. |
|
|
| Como
no Brasil a memória coletiva tem sido desprezada, é importante também conhecer
uma trajetória que congregou o empenho de muitos cidadãos para proteger seu patrimônio
comum. É a história de proteção do
cinturão verde da cidade de São Paulo, que emerge como uma das páginas mais significativas
do ambientalismo brasileiro e merece ser resgatada através de seus fatos marcantes.
Pode servir de exemplo e de incentivo. 1986:
a Administração Municipal de Jânio Quadros pleiteou junto ao BID empréstimos externos
alegando a execução de projeto de saneamento básico para o Córrego do Tremembé.
O programa incluía o Córrego do Tremembé, que corre no sopé ao sul da serra da
Cantareira, e a comunidade também se deu conta de que a obra iria expor o maciço
da Cantareira a uma especulação imobiliária voraz e a invasões clandestinas incontroláveis.
Todas as instâncias administrativas e jurídicas do país foram acionadas em vão.
Afirmava-se, como se faz hoje, que obra era "fato consumado e irreversível
ainda mais porque o dinheiro externo estava a caminho”.
Então, começou uma batalha para reverter a situação. O Conselho Comunitário
da Região Administrativa de Santana –Tucuruvi, solicitado pela comunidade para
tomar providências no sentido de evitar a execução dessa obra, em face das desapropriações
anunciadas, foi em busca do projeto junto à Prefeitura. Formou-se também uma
aliança do Conselho Comunitário com a comunidade e com ONGs no Brasil e
fora dele. Após várias reuniões, sem ter esse projeto em mãos, apresentou-se por
um dos Conselheiros a possibilidade de ajuda de um Senador americano para evitar
a concessão do empréstimo. Em decorrência dessa iniciativa, o BID designou três
técnicos para virem a São Paulo. Em 12 de março de 1989 essa comissão do BID reuniu
–se com a comunidade em verdadeira audiência pública a fim de conhecer o objetivo
do projeto e suas anunciadas conseqüências. Os técnicos chegaram à conclusão de
que o empréstimo, solicitado para saneamento básico, na verdade destinava-se a
obra viária urbana mediante canalização subterrânea do córrego e impermeabilização
do solo no fundo de vale do Tremembé. Os
empréstimos foram bloqueados imediatamente e o projeto arquivado. 1989:o
Governo do Estado de SP lançou o projeto da Via Perimetral Metropolitana. Um projeto que feria diretamente o Horto Florestal e causava
grave impacto ambiental, além de desapropriação de grande número de imóveis, gerando
problemas sociais com milhares de pessoas atingidas ao longo do traçado. Novamente
o Governo teria buscado empréstimos internacionais, desta vez junto ao BIRD –
o Banco Mundial – e produzido um estudo técnico para justificar a obra. Outra
vez a comunidade se uniu em resistência, acionando praticamente o mesmo arco de
alianças que em 1986. Várias representações enviadas ao Banco Mundial denunciaram
a irregularidade do processo, levando-o a recuar na concessão do empréstimo.
1995:
iniciou-se a atual campanha com estratégias e táticas bem definidas: troca de
rótulo – de VPM para RODOANEL – e o novo discurso oficial veio recheado de “ambientalismo”.
Quanto ao conteúdo era o mesmo. Já o marketing, milionário. |
|
|
| A rigor, a campanha popular contra a VPM se desenvolveu em duas dimensões: de um lado se acionou o bloqueio dos recursos na fonte; de outro, uma ampla mobilização nacional e internacional pedia à UNESCO a criação da RBCVCSP. Durante dois anos foram coletadas 150.000 assinaturas pela criação da Reserva e paralisação da VPM. |
![]() |
A
campanha teve amplo êxito, e a diplomação internacional pelo MaB UNESCO aconteceu
em junho de 1994. Fica, portanto, muito claro, que a Reserva da Biosfera do Cinturão
Verde da Cidade de São Paulo não nasceu apenas de trabalhos acadêmicos de gabinete,
mas de um movimento legítimo, verdadeiro, da comunidade. |
|
A
resistência hoje |
| No
afã de prosseguir em seu projeto bilionário, hoje novamente o Governo busca empréstimos
externos junto às comunidades japonesa e britânica, entre outras, sempre vendendo
a imagem de que o Rodoanel é uma obra limpa, que resolverá o problema do tráfego
e da poluição no centro densamente urbanizado. Cabe à cidadania transmitir aos
que estão lá fora a dimensão exata da tragédia humana e ambiental arquitetada.
Assim, autoridades do governo japonês em visita ao Brasil em fevereiro de 2000,
foram esclarecidas por representantes de ONGs locais.Uma dessas autoridades chegou
mesmo a admitir que no passado o Japão financiou muitas obras de cunho tecnocrático
autoritário, mas que atualmente a postura ética desse país mudou muito, e a vontade
da comunidade é sempre levada em conta. Outra medida já tomada foi a denúncia feita pelo presidente do Sindicato dos Advogados de São Paulo à OEA - Organização dos Estados Americanos – sobre a truculência com que, na prática, têm sido tratados os cidadãos diretamente atingidos pela construção do Rodoanel. Internamente, a comunidade recorreu ao Ministério Público, e inquéritos civis públicos relativos à obra estão em andamento; as irregularidades do projeto continuam sendo investigadas. Mas nada de concreto resultou até agora. O mesmo se pode dizer das tentativas junto ao Legislativo Paulista onde as denúncias de superfaturamento do Rodoanel em seu trecho Oeste foram de tal ordem, que um pedido de CPI para investigar a obra alcançou o número regimental de assinaturas dos parlamentares. Mas até agora, a iniciativa não prosperou. Técnicos do Instituto Florestal do Parque Estadual da Cantareira analisaram os EIAs/RIMAs e apresentaram parecer desfavorável, que teve uma trajetória com repouso em gavetas, inclusive na própria SMA. Enquanto isso, a comunidade ganhou consciência, articulando-se para manifestar seu repúdio. Um abaixo-assinado pela proteção da Serra continua reunindo nomes. |
| No
dia 1º de setembro de 2002, um grupo de moradores da Serra da Cantareira protocolou
ofício para um primeiro encontro com o Governador de São Paulo. Na véspera, havia
sido realizada a primeira manifestação coletiva: na região Norte de São Paulo
– e mais uma vez no bairro do Tremembé, o berço da resistência ambiental – moradores
desse bairro e da Serra da Cantareira organizaram uma passeata à qual compareceram
aproximadamente mil pessoas. Com palavras de ordem como “Rodoanel na Serra não!
A Cantareira é da Humanidade!” os manifestantes caminharam pela principal avenida
do bairro em direção ao Horto Florestal onde abraçaram simbolicamente a Serra,
dando-se as mãos em volta do lago do Horto. Ninguém da grande imprensa estava
lá, mas o movimento cresceu. Em volume e qualidade. Foto: Celso Heredia/Arquivo JS |
| Rodoanel na Serra, "não"! |