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Solidamente implantado no Caminho do Mar, o Monumento do Ipiranga lembra que essa
cidade dos contos de fadas é independente e livre, dona de uma moeda soberana,
o surreal. Graciosamente
cortando os costados da Serra da Cantareira, a mais nova obra dessa cidade feliz:
o Rodoanel, cujas bocarras, como goelas de dragão que, ao invés de exalar um hálito
doentio e pestilento como todo dragão que se preza, exalam um perfume de flores
e das mais finas essências das matas da Cantareira. Sempre catito e inocente,
o Rodoanel caminha em direção aos mananciais de água pura da cidade, as represas
Billings e Guarapiranga (garça vermelha, num idioma esquecido desse povo) e aí,
supremo milagre, a boa fada constrói
uma ponte suspensa, oitava maravilha do mundo, de dar inveja à Golden
Gate. Os
excluídos da fantasia
- Nesse desenho mágico, porém, a boa fadinha, que sempre esconde uma vara, esqueceu-se
de acrescentar a Cidade Clandestina, com seus 2 milhões e meio de pessoas: os
favelados, encortiçados, os sem-terra, os sem-teto, sem saúde, sem escola. Por
uma questão de piedade, compromisso com padrões estéticos, ou por outra razão
inconfessável (afinal, ninguém sabe o que se passa pela cabeça dessas fadinhas
tresloucadas) não desenhou o exército de crianças que perambulam pelas praças
e assaltam motoristas desavisados nos semáforos, nem o trânsito caótico ou as
enchentes, que todos prometem acabar num passe de mágica, mas que a cada ano se
revelam mais indomáveis. Da mesma forma, o pincel inspirado dessa fadinha
não conseguiu captar as invasões de ricos e pobres às margens plácidas das represas
e as enormes feridas abertas no sopé e mesmo nas encostas da Cantareira, no Jaraguá
e em todo o cinturão verde da cidade. Mas esta é uma outra história, que fica
para outra vez. Abusando
do direito de iludir
- Neste momento em que o governo tenta arrebanhar junto aos bancos japoneses e
ao Banco Interamericano alguns bilhões de dólares para a construção do Rodoanel,
com seus túneis na Cantareira, a opinião pública é bombardeada com intensa propaganda
institucional objetivando deslocar o eixo da discussão para questões amenas e
periféricas.”Este desenho, quase caricatura, elaborado por 2 artistas talentosos
(e bem pagos com o dinheiro do contribuinte) é um exemplo disso” afirmam os opositores
do Rodoanel. Tenta vender uma imagem inocente dessa obra, dourando a pílula e,
o que é pior, subestimando a capacidade crítica do cidadão “, completam.
Segundo os especialistas, o Rodoanel acelera a destruição do cinturão verde de
São Paulo e ajudará a romper o delicado equilíbrio térmico e hídrico da cidade,
resultando no avanço das ilhas de calor, no aumento das enchentes catastróficas,
em maior destruição do tecido urbano como um todo. Em artigo no jornal OESP,
o jornalista Washington Novaes correlaciona o vendaval ocorrido em Guarulhos (fevereiro
de 1999), que chegou a paralisar o Aeroporto Internacional, à destruição do tecido
verde da grande cidade: mais calor na metrópole gera mais correntes conveccionais
que, por sua vez, detonam mais e com maior intensidade as chamadas tempestades
magnéticas, com chuvas torrenciais, ocorrências de granizos, coriscos e ventos
avassaladores, que aumentam sua velocidade pela ausência de barreiras verdes.
Para os opositores do Rodoanel, esta postura governamental é leviana, mas
não é novidade, pois recordam que na época em que planejou pela primeira vez o
Rodoanel, naquele tempo era VPM - Via Perimetral Metropolitana - o governo Quércia
afirmava publicamente que o Banco Mundial apoiava a obra. Argüido oficialmente
sobre esta afirmação o Banco Mundial divulgou desmentido oficial (a documentação
consta dos arquivos de Vera Lúcia Braga). A
ilusão da impunidade
- Os opositores dessa obra faraônica, depredadora e destinada à obsolescência
em apenas seis anos, vislumbram nesta “cidade do faz de conta” objetivos subliminares
bem urdidos por cérebros de aluguel (serão os mesmos que foram flagrados na Dersa
com salários superiores aos do governador?) capazes de distorcer os resultados
das audiências públicas do Rodoanel, obrigatórias por lei. Para muitos, governar
acarreta a ilusão da impunidade. Seria este mais um caso clássico de propaganda
enganosa? Com a palavra o Ministério Público e a OAB. |