“Alice no país das maravilhas"

 

São Paulo sob o traço de Gepp e Maia: marketing do Rodoanel

Cidade de mentirinha
ou propaganda enganosa?


Ao sul da linha do Equador, a ocidente de Marrakesh e de Bagdá, existe uma cidade onde o povo vive eternamente feliz. Ali, o rio Tietê corre manso e límpido, a população folgada do Brás e da Mooca reúne os amigos em torno de uma boa mesa, enquanto no Bexiga e na Vila Madalena companheiros sorridentes esvaziam canecos e mais canecos do mais puro levedo. Na Ponte do Limão o batuque corre solto, e os sambistas esquentam seus tamborins neste país do eterno carnaval. 

Solidamente implantado no Caminho do Mar, o Monumento do Ipiranga lembra que essa cidade dos contos de fadas é independente e livre, dona de uma moeda soberana, o surreal.

Graciosamente cortando os costados da Serra da Cantareira, a mais nova obra dessa cidade feliz: o Rodoanel, cujas bocarras, como goelas de dragão que, ao invés de exalar um hálito doentio e pestilento como todo dragão que se preza, exalam um perfume de flores e das mais finas essências das matas da Cantareira.
Sempre catito e inocente, o Rodoanel caminha em direção aos mananciais de água pura da cidade, as represas Billings e Guarapiranga (garça vermelha, num idioma esquecido desse povo) e aí, supremo milagre, a boa  fada constrói uma ponte suspensa, oitava maravilha do mundo, de dar inveja à Golden  Gate.


Os excluídos da fantasia - Nesse desenho mágico, porém, a boa fadinha, que sempre esconde uma vara, esqueceu-se de acrescentar a Cidade Clandestina, com seus 2 milhões e meio de pessoas: os favelados, encortiçados, os sem-terra, os sem-teto, sem saúde, sem escola. Por uma questão de piedade, compromisso com padrões estéticos, ou por outra razão inconfessável (afinal, ninguém sabe o que se passa pela cabeça dessas fadinhas tresloucadas) não desenhou o exército de crianças que perambulam pelas praças e assaltam motoristas desavisados nos semáforos, nem o trânsito caótico ou as enchentes, que todos prometem acabar num passe de mágica, mas que a cada ano se revelam mais indomáveis.
Da mesma forma, o pincel inspirado dessa fadinha não conseguiu captar as invasões de ricos e pobres às margens plácidas das represas e as enormes feridas abertas no sopé e mesmo nas encostas da Cantareira, no Jaraguá e em todo o cinturão verde da cidade. Mas esta é uma outra história, que fica para outra vez.

Abusando do direito de iludir - Neste momento em que o governo tenta arrebanhar junto aos bancos japoneses e ao Banco Interamericano alguns bilhões de dólares para a construção do Rodoanel, com seus túneis na Cantareira, a opinião pública é bombardeada com intensa propaganda institucional objetivando deslocar o eixo da discussão para questões amenas e periféricas.”Este desenho, quase caricatura, elaborado por 2 artistas talentosos (e bem pagos com o dinheiro do contribuinte) é um exemplo disso” afirmam os opositores do Rodoanel. Tenta vender uma imagem inocente dessa obra, dourando a pílula e, o que é pior, subestimando a capacidade crítica do cidadão “, completam.
Segundo os especialistas, o Rodoanel acelera a destruição do cinturão verde de São Paulo e ajudará a romper o delicado equilíbrio térmico e hídrico da cidade, resultando no avanço das ilhas de calor, no aumento das enchentes catastróficas, em maior destruição do tecido urbano como um todo.
Em artigo no jornal OESP, o jornalista Washington Novaes correlaciona o vendaval ocorrido em Guarulhos (fevereiro de 1999), que chegou a paralisar o Aeroporto Internacional, à destruição do tecido verde da grande cidade: mais calor na metrópole gera mais correntes conveccionais que, por sua vez, detonam mais e com maior intensidade as chamadas tempestades magnéticas, com chuvas torrenciais, ocorrências de granizos, coriscos e ventos avassaladores, que aumentam sua velocidade pela ausência de barreiras verdes.
Para os opositores do Rodoanel, esta postura governamental é leviana, mas não é novidade, pois recordam que na época em que planejou pela primeira vez o Rodoanel, naquele tempo era VPM - Via Perimetral Metropolitana - o governo Quércia afirmava publicamente que o Banco Mundial apoiava a obra.
Argüido oficialmente sobre esta afirmação o Banco Mundial divulgou desmentido oficial (a documentação consta dos arquivos de Vera Lúcia Braga).

A ilusão da impunidade - Os opositores dessa obra faraônica, depredadora e destinada à obsolescência em apenas seis anos, vislumbram nesta “cidade do faz de conta” objetivos subliminares bem urdidos por cérebros de aluguel (serão os mesmos que foram flagrados na Dersa com salários superiores aos do governador?) capazes de distorcer os resultados das audiências públicas do Rodoanel, obrigatórias por lei. Para muitos, governar acarreta a ilusão da impunidade.
Seria este mais um caso clássico de propaganda enganosa? Com a palavra o Ministério Público e a OAB.

A ilustração reproduzida nesta página é cópia fiel do poster original de autoria de Gepp e Maia, produzido pela Dersa, (Desenvolvimento Rodoviário S.A.) para veiculação de propaganda sobre o Rodoanel. Do original, na dimensão de 85 cm x 65 cm, foram destacados os segmentos aqui inseridos. O original completo pode ser solicitado à Dersa. 
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