| São Paulo: cidade sustentável ou insustentável? |
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Do
modo como foi concebido o Rodoanel provoca no organismo vivo da cidade um trauma
profundo que precisa ser meticulosamente estudado à luz da moderna ciência ambiental,
o que não está acontecendo.
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Menos vegetação, menor qualidade de vida Naturalmente os delicados mecanismos
responsáveis pela manutenção da qualidade de vida da cidade e de seus habitantes
devem ser a tônica principal: o que a construção do Rodoanel significa em perda
de tecido verde, em maior aquecimento da cidade, aumento das enchentes, desequilíbrio
no lençol freático, agravando a crise no suprimento de água que afeta a cidade,
a contaminação da água, a sanidade vegetal e humana devido a mais altos níveis de
poluição do ar, do solo, das águas superficiais e subterrâneas, a destruição da
biodiversidade e agressão à própria comunidade humana. O Rodoanel virá agravar
um desequilíbrio já preocupante. Neste
começo de século, o modelo rodoviarista do Rodoanel não se sustenta, pois agride
a racional ocupação e uso do solo da Metrópole e, em última análise, é contra
a qualidade de vida de seu habitante buscada pela Reserva da Biosfera.
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O gráfico publicado no jornal O ESP - 27/05/01 revela que já naquela data restavam na cidade de São Paulo apenas 5% da vegetação existente na época de sua fundação. Entre 1986 e 1999, ou seja, só em 13 anos, mais 30% da cobertura vegetal do município foram devastados, inclusive na Serra da Cantareira. A despeito das leis de proteção. O mais grave: a devastação continua no entorno do Parque, e o Rodoanel exacerbará este quadro, contribuindo ainda mais para o crescimento desordenado de São Paulo. |
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| Apresentado
como novo vetor de desenvolvimento, na verdade o Rodoanel reforçará e acentuará
esta tendência ecocida. Já na sua construção - Trecho Oeste – as fotos são traumáticas
e ressaltam o distúrbio nos componentes naturais e humanos do meio. Um detalhe:
quando a equipe do Jornal da Serra estava em campo, no Lote 6 do Trecho Oeste,
foi advertida por um funcionário do DER: “é proibido fotografar”. (!) Confirmação indiscutível das irregularidades cometidas na construção atropelada do Trecho Oeste, por exemplo, é a circunstância de ter sido iniciado sem o competente EIA/RIMA nas condições legais e com as conseqüências hoje denunciadas pelos Tribunais de Contas, do Estado e da União, e pelos Ministérios Públicos Estadual e Federal, além de uma CPI na Assembléia Legislativa. |
lhas de Calor na Metrópole |
![]() | Está cientificamente comprovado que a cobertura vegetal do Cinturão Verde da Cidade é poderoso estabilizador do clima na medida em que controla a expansão das ilhas de calor do centro em direção à periferia. As ilhas de calor são geradas pela total degradação ambiental, substituindo-se a vegetação por edificações, pelo concreto, pela impermeabilização do solo, o que intensifica a geração e emanação de calor. |
| Foto Celso Heredia/Arquivo JS - Entorno do Pq da Cantareira: em 2000 aqui só havia floresta |
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Nos últimos anos estamos perdendo tecido verde de forma significativa, e o levantamento
realizado pela municipalidade em São Paulo é inquestionável em si e como indicador
dos demais municípios. A Fundação SOS Mata Atlântica, através de levantamento
próprio, reforça esta afirmação. Não resta dúvida que o Rodoanel, uma ferida imensa
no Cinturão, ampliará este fenômeno, induzindo a mais destruição em seu tecido
verde. E, conseqüentemente, contribuindo para o aumento das ilhas de calor.
Esta afirmativa consta do EIA/RIMA do Empreendimento (379.410 m² de vegetação destruída) e no Parecer da Faculdade de Saúde Pública da USP: “Com relação à geração das ilhas de calor, os trabalhos colocam que a urbanização metropolitana é quem gerou e vem gerando estas ilhas de calor, o que de fato é verdadeiro, porém não há como isentar-se de colaborar com este processo devido à urbanização prevista em seu entorno”. É a cidade como centro de energia que está em questão: mais energia para sustentar novas atividades humanas e para dar conforto térmico ao aglomerado humano que aumenta cada vez mais! Cientistas já vêm alertando: neste novo milênio São Paulo poderá chegar a temperaturas de mais de 40° C se a todos estes fatores se juntarem os já conhecidos do "efeito estufa". É um ciclo vicioso: mais energia... |
| Todas
estas reflexões, comprovações e evidências científicas têm sido até agora desprezadas
pelo pensamento tecnocrata, que coloca o avanço tecnológico como principal condição
de felicidade. Está na hora de se colocar em discussão a continuidade de
seu modelo energético perdulário, de suas formas de sobrevivência - entre elas
o rodoviarismo - que depredam a natureza; está na hora de repensar o modelo de
uma cidade já supersaturada e de se deter mais sobre o conceito de aglomerado
urbano sustentável. Que a crise energética que vivemos sirva para reflexão sobre
a insustentabilidade desse modelo depredador que estimula o consumismo e a artificialidade.
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| Rodoviarismo: depredatório e insustentável |
| Rodoanel agrava crise do abastecimento de água |
O
traçado do Rodoanel atravessa uma riquíssima rede de drenagem, bastante sensível
e vulnerável, que compõe o sistema de abastecimento de água da Região Metropolitana
de SP e que já atinge seu ponto crítico. |
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| Paiva Castro: capacidade comprometida |
| No outono de 2001 o Reservatório do Juquery esteve com 41% de sua capacidade real como informou o Jornal O ESP em 17 de abril, baseando-se em dados fornecidos pela Sabesp. Na época de maior estiagem, no inverno, chegou a apenas 14% de sua capacidade. Segundo a “alternativa Norte Superior” do Trecho Norte, que cortaria a Serra impiedosamente, as pistas passam sobre o último canal a céu da aberto do Sistema Cantareira antes da estação de tratamento. Não estarão colocando em risco a delicada artéria aorta da cidade? Além do impacto causado pela obra em si, ela também induz a intensa urbanização, controlada ou espontânea. As conseqüências todos conhecem, mas desconsideram: maior impermeabilização do solo intensificando-se o escoamento de água superficial e a erosão do solo descoberto de sua vegetação, aumentando a sedimentação, que irá entupir a calha dos rios e provocar distúrbio na recarga dos lençóis de água. | ![]() |
Canal da Paiva Castro: artéria aorta de SP |
| Isto
é clássico e ocorre na cidade de SP, mas os Estudos de Impacto Ambiental oficiais
não levam em conta o aspecto da cidade como organismo vivo, numa perspectiva realmente
holística - a
mais ampla e profunda do conceito de Sustentabilidade.
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São
Paulo vem experimentando um fenômeno que merece atenção cuidadosa não só dos especialistas:
as chuvas têm sido torrenciais e catastróficas na mancha urbana, mas nas cabeceiras
dos mananciais, onde precisa chover, não chove!
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O fenômeno das enchentes na região de São Paulo tem origens conhecidas: inicialmente os rios perderam suas várzeas para a ocupação humana. Em seguida vieram a remoção da cobertura vegetal primitiva (que prossegue em ritmo acelerado segundo dados oficiais), impermeabilização do solo, aumento da quantidade de chuva na mancha urbana, alteração no regime das chuvas que antes eram mansas e “criadeiras” e agora são torrenciais, em forma de tempestades magnéticas, de chuva ácida, com relâmpagos, coriscos e granizos. Ou seja: menor infiltração da água no solo, agora impermeabilizado, e maior quantidade de água em menor tempo,– a água busca a rede de drenagem com maior velocidade; aqui segue a potencialização do fenômeno enchente, pois estes rios sofreram profundas modificações e desequilíbrio, com as clássicas retificações, canalizações e muitas vezes "sepultamento" (emparedamento total). E a lama que vem do solo exposto entope sua calha. A tecnologia clássica que nos vendem, curativa ou paliativa, também já é conhecida: barragens reguladoras, aprofundamento do leito dos rios, que no caso do Tiete já custa mais de U$$ 100 milhões e ainda não está concluído, retirada de 300 caminhões/dia de sedimentos do leito desses rios a um custo de R$ 19 milhões/ano; e construção de piscinões a R$15milhões cada. |
| Visto da Cantareira raio atinge São Paulo |
Para
minorar as enchentes se calcula a necessidade de mais uma centena desses piscinões
em São Paulo. A cidade vive um contra-senso. Levantamentos oficiais calculam em
R$ 9 bilhões o custo para controlar suas enchentes. Um custo de grandeza próxima ao do Rodoanel. Numa administração
realmente democrática do espaço urbano e onde prevalecessem os princípios do “orçamento
participativo”, o cidadão deveria poder optar: Rodoanel ou fim das enchentes!
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Aumento da contaminação do arSoa falsa e temerária a propaganda oficial perigosamente segura de si - "Vamos Tirar São Paulo do Sufoco" e similares - prometendo a limpeza do ar da cidade. Na realidade, a contaminação do ar, em particular no centro densamente urbanizado, será levada para áreas de maior pureza ambiental, justamente aquelas onde se desenvolverá o traçado do Rodoanel, o que é contrário ao que determina a legislação específica e fere os princípios da auto-sustentabilidade da cidade. É justamente o conceito da auto-sustentabilidade do aglomerado urbano que está em jogo. De um lado se destrói o tecido verde (qualidade de vida); de outro se incrementam os níveis de contaminação do ar (comprometendo a saúde). | |
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Foto ao lado feita por satélite em 1991: São Paulo densamente urbanizada e poluída (o roxo indica contaminação do ar). O Rodoanel exacerbará esse quadro patológico | |