Minha
paixão, porém, não é a
única. Encontrei pessoas que também
foram arrebatadas e hoje vivem ali. Supervivem, como
diria um amigo baiano. Não que seja o Paraíso,
porque este ainda ninguém encontrou. Mas beira.
Sônia e Sergei do Porto do Céu, Oswaldo
do Montanhês, Maristela e Carla dos Orgânicos
da Mantiqueira, Silvana da Pousada do Rio, as Senhoras
das Especiarias, o Bob das trutas, Neusa e Adriano,
do Deméter na Roça. Todos vindos de
São Paulo: criativos, inteligentes. Felizes.
Histórias diferentes de mudanças radicais,
aptidões diversificadas, mas no mesmo rumo.
Então
vamos a Gonçalves. Aninhada na Serra da Mantiqueira,
pouco depois da divisa de São Paulo com Minas
Gerais, esta pequena cidade sul-mineira (tem 5000
mil habitantes) é de uma tranqüilidade
invejável: poucos carros nas ruas, nada de
poluição. Ao entardecer, o sol desce
até o cenário mágico das florestas,
dourando esse tesouro. Dos mirantes naturais, como
a Pedra Chanfrada, a Pedra do Forno e no Cruzeiro
vê-se a região por inteiro; e no meio
do verde, muitas cachoeiras e trilhas. É bom
demais caminhar por ali, apreciando o canto dos pássaros,
pensando na vida ou, o que é melhor, sentindo
no rosto o sopro da felicidade.
Está
a 180 Km de São Paulo, quando se vai pela Fernão
Dias (com 30 km de estrada de terra bem cuidada a
partir de Cambuí); outro caminho é a
Dutra, são 230 km de asfalto. Localizada a
1350 m de altitude e com pontos que chegam a 2050
m, dispensável dizer que Gonçalves é
ainda mais especial no outono e no inverno. Sua paisagem
tem a exuberância da amplidão dos topos,
de onde o olhar se enrosca na linha que ondula o horizonte.
No entanto, por seu relevo e cenário, Gonçalves
não fica na mesmice do puro sossego. Como é
cortada pelo ribeirão Campestre e pelo rio
Capivari, quem adora esportes radicais se depara com
bons desafios nos penhascos e cachoeiras. Pode praticar
trekking, montanhismo, rapel, cannoing, bóia-cross,
rafting. Quem gosta da noite se reúne em alguns
pontos de encontro, para um bate-papo com boa música
e excelente cardápio. Embora o centro seja
pequeno, o município se alarga em bairros distantes,
alguns de inédita nomenclatura, como São
Sebastião das Três Orelhas, e outros
que herdaram o nome de seus primeiros moradores, como
os Venâncios. Cada um tem uma data festiva,
e as tradicionais comemorações se multiplicam
pelas comunidades rurais. Desse modo, a cidade vive
quase sempre em festa. E nos atalhos, restaurantes
inesperados, com fogão a lenha que encanta
e aquece, como o Truta Queda d’Agua, de Bob Marinho,
que de quebra tem uma cachoeira bem pertinho da entrada.
Gonçalves possui características humanas
e ambientais especiais. Está em Área
de Preservação Ambiental, é formadora
de bacias, tem relevo acidentado, florestas remanescentes
da Mata Atlântica, temperatura subtropical que
chega a 30º no verão. E é dona
de um dos melhores climas de montanha do mundo.
Montanhas
mágicas
Até
bem pouco Gonçalves nem existia nos roteiros
de viagem. Mas, suavemente, como deve ser, seus encantos
e sua magia estão sendo revelados. Em particular
na temporada de inverno, quando a temperatura chega
a -7º. Isto mesmo: menos sete e, às vezes,
dez graus negativos. De clima seco e céu azul
constante, o outono é frio à noite e
agradavelmente tépido pela manhã; no
inverno, muito sol e pouco vento, o que é bom,
senão seria uma sensação frio
“novaiorquina”... Graças a Deus, estamos em
Minas. E em Gonçalves! Mas ali a lareira é
indispensável, e curtir um bom vinho à
beira do fogo é um prazer que não se
esgota.
Para
os musicais e os comilões
Por
isso e por tudo o mais, a cidade tem como marca registrada
pousadas intimistas e quase exclusivas, restaurantes
charmosos e originais, com culinária de primeiríssima.
Todos se abastecem com produtos orgânicos da
região e há os que dispõem de
plantações próprias. A cidade
ainda tem artesanato em madeira e lojas com produtos
da região. Entre as pousadas, a do Montanhês
está em local ainda mais privilegiado, no bairro
Sertão do Cantagalo, a 1750 mts, considerado
o local habitado com maior altitude no Brasil. Mesmo
porque, "pela Lei, é proibido construir
a partir de 1800 mts", informou Oswaldo Barbosa,
seu proprietário.
A tradição da culinária caipira
é forte em Gonçalves, com restaurantes
onde, de fato, se cozinha no fogão a lenha
e quitutes caseiros, típicos de Minas, irresistíveis.
Entre eles estão os doces em calda de dona
Jovina, que há 23 anos começou a preparar
receitas com as frutas do quintal. A quantidade era
tamanha que Jovina passou a vender suas delícias
e não parou mais; ainda hoje, faz e vende tudo
em casa.
Alimento
tradicional e abundante desde abril até agosto,
o pinhão está em todas as mesas, sob
as mais diversas formas. Surge reluzente e macio em
saladas e refogados, em uma culinária caipira
com toques mais sofisticados, como a de Neusa Sarto
no restaurante Deméter. A culinária
local não torce o nariz para novidades.
Já no Porto do Céu, dos paulistanos
Sergei Kotolevzev e Sônia Sarto, um bistrô
com música ao vivo e sessões de jam
exclusivas, vive-se em clima de arte. Além
do restaurante com massas artesanais e pizzas no jantar,
sob o comando de Sergei (o melhor capelletti com ricota
e nozes ao molho de funghi secchi que já provei
foi ele quem preparou), ao lado funciona a criativa
marcenaria onde também se faz uma releitura
de móveis antigos, o hobby diurno desses dois
taurinos festeiros e agregadores. O Porto do Céu
funciona nos finais de semana e feriados, "das
20hs até o caldo da madruga", informa
a placa na entrada.
No
centro da cidade, em frente à Igreja matriz,
o Bar do Marcelo é parada obrigatória.
Tem de um tudo, desde produtos da região a
uma variedade enorme de cachaça (mais de 380
rótulos) e uma coleção de miniaturas.
Bonito de ver e permitido comprar. Marcelo também
serve um imbatível café expresso orgânico.
Quando se chega ao centro de Gonçalves, uma
casa pintada em terracota chama a atenção,
sobretudo por sua placa: A Senhora das Especiarias
(na verdade são “as senhoras”, duas amigas
que deram uma guinada na vida e também trocaram
São Paulo por Gonçalves). Ali funciona
um laboratório de geléias exóticas,
como hortelã com abacaxi, de cachaça,
pimenta com gengibre e alfazema, ou com alecrim. São
mais de 100 e preparadas com produtos naturais e açúcar
orgânico, e os pãezinhos para degustá-las
também saem de sua cozinha fumegante e tomada
de aromas.
Para
os aventureiros
Além das trilhas que serpenteiam por entre
as matas, correm as cachoeiras e se erguem grandes
pedras. Entre as cachoeiras mais atraentes estão
a do Cruzeiro e do Retiro, esta formada por corredeiras
e poço para banho; a Cachoeira do Simão,
com queda de 7 metros de altura divididos em dois
seguimentos que chegam a uma ampla piscina; Cachoeira
dos Martins, onde os 100 metros de corredeiras circundadas
pela paisagem ao redor são cenário para
os praticantes de cannoing e tirolesa; ou para banhistas.
O bóia-cross é outra opção
de divertimento radical no rio Capivari, com corredeiras
fáceis e quedas de até 4 metros de altura;
já no Ribeirão Campestre o nível
de descida é mais avançado.
Em terra, há o trekking para a Pedra do Forno,
um dos pontos mais altos de Gonçalves. De lá
se tem uma vista de 360º de toda a região,
que alcança Campos do Jordão, Monte
Verde, Pedra de São Domingos e a Pedra do Baú.
Já o trajeto para a Trilha do Campestre, que
contorna a montanha também chamada Campestre,
passa por um bosque de samambaias e araucárias
e atinje o topo, mas deve ser feito com guia e exige
bom preparo físico. O passeio para a Pedra
de São Domingos, com 2050 metros de altitude,
também oferece uma vista de 360º da Serra
da Mantiqueira; e quem quiser, pode praticar rapel
na Pedra da Catedral.
Agricultura
orgânica
Outro
diferencial de Gonçalves é a agricultura
familiar orgânica. Diferente do que acontecia
nos velhos tempos, quando ali predominavam as
plantações de tabaco e os defensivos
tóxicos, há seis anos os agricultores
preocupam-se mais em preservar suas terras,
matas e nascentes, buscando a diversidade de
culturas assim como uma nova relação
entre os indivíduos e o alimento. Passaram
a produzir alimentos orgânicos, sem agrotóxico,
ou adubo químico, utilizando métodos
que não agridem a natureza. Uma boa variedade
de frutas, legumes e hortaliças floresce
sem esgotar a terra. Tudo fiscalizado segundo
normas específicas e com certificado
do IBD (Instituto Biodinâmico). Há
o controle de produção e de comercialização.
Boa parte das colheitas é reunida em
um entreposto - que também funciona como
sede da associação de produtores
- coordenado por Maristela Canepelle e Carla:
“Orgânicos da Mantiqueira”. De lá
chega aos consumidores e até mesmo a
revendedores exclusivos em São Paulo.
Tudo embalado e sempre |
acrescido de um pequeno informativo, que inclui
receita com algum dos produtos daquela cesta
e dicas de preservação ambiental.
Mais do que distribuição, ali
se produz consciência. Com carinho pelo
ofício e pela terra. Para
ver mais, clique na foto. |
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Gonçalves
está no caminho exemplar da autossustentabilidade,
no seu sentido mais verdadeiro. Mesclando as
benesses da montanha e do campo, reunindo gente
"sangue bom" e boas cabeças,
esta região caminha com passos seguros
em seu destino: turismo rural e ecoturismo.
Mas requer muito mais do que desejo de paz e
disposição. Gonçalves pede
para se chegar ali amorosamente. Há muito
o que ver e o que fazer nessa região
privilegiada, onde quero voltar e voltar... |
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