Galápagos: reflexos
do Paraíso
texto: Isabel Raposo/
fotos: Heitor Reali
Também
conhecido como Ilhas Encantadas, Galápagos é um
arquipélago de origem vulcânica, com fantástica
biodiversidade que reúne exemplares únicos de fauna
terrestre e marinha. Ali, quase tudo é intocável.
Parte
1
Diz
a Bíblia que, no Paraíso, os animais e os homens viviam
em harmonia. Em Galápagos é assim. Hoje, o governo
equatoriano e entidades ambientalistas nacionais e
internacionais procuram preservar a todo custo esse
arquipélago, onde várias espécies de animais e aves
convivem pacificamente; onde o ser humano caminha
entre eles, mergulha com eles no mar, e é visto como mais um deles, que não os agride nem os assusta. Que não os
ataca nem é atacado. Isso não é o Paraíso?
A
VIAGEM
Esta
viagem foi a realização de um sonho acalentado durante
quase um ano por um grupo de moradores da Serra da Cantareira.
Um grupo de amigos, cujos laços se estreitaram nessa
rara e preciosa lição de amor à vida. Deixamos
a Serra em plena madrugada e chegamos em Quito, Equador,
à tarde. Na manhã seguinte embarcamos para Guayaquil,
em direção a nosso destino: Ilhas Galápagos, a 960 Km
do litoral equatoriano. O roteiro da viagem ficou a
critério do governo do Equador, porque o número de visitas
e de visitantes é controlado para que não se altere
o ecossistema de Galápagos, tão antigo quanto frágil.
A
CHEGADA
Desembarcamos
na Ilha Baltra (ou Seymur), após 1:45h de vôo sobre
o Pacífico. O primeiro impacto ficou por conta da aridez
da paisagem: sol intenso e cactus. O aeroporto é uma
espécie de barracão, e a gente constata que aterissou
num outro mundo, absolutamente distante no tempo e no
espaço do burburinho que conhecemos como “civilização”.
Depois de alguma espera, já com as devidas licenças
para entrar em Galápagos, fizemos um pequeno trajeto
de ônibus até a Base militar, onde nosso veleiro nos
esperava. Branco, lindo, ondulando com suavidade! Logo,
outro encantamento: refestelados no pequeno cais, lobos
marinhos nos olhavam com absoluta indiferença, blasés
diante de nosso entusiasmo.Embarcamos
e fomos recebidos pelos oito tripulantes que se ocupariam
de nós com dedicação durante os cinco dias a bordo.
Tudo pronto, o Enterprise recolheu a âncora e
partimos em direção a Playa Bachas para o primeiro banho
de mar.O
veleiro nunca se
aproximava demais das
ilhas, e o traslado era feito em botes. Os desembarques
variavam segundo as condições de cada uma: desembarque
molhado significava descer direito na água, uma operação
cuidadosa da qual logo nos tornamos experts;
no desembarque seco havia um pequeno pier, em geral
ocupado por lobos marinhos dormitando. E sempre, sempre,
muito sol.
HISTÓRIA
Galápagos
é um conjunto de ilhas vulcânicas onde a água doce é
tão rara quanto nos maiores desertos do nosso planeta.
É uma província do Equador tombada pela ONU como Patrimônio
da Humanidade e transformada em Parque Nacional.
Um lugar mágico, um santuário ecológico que tem sido
preservado exatamente como era quando Charles Darwin
ali desembarcou em 1835. Depois de observar plantas,
animais e a agressiva geologia das ilhas, ele chegou
a uma conclusão que iria mudar os rumos do conhecimento
humano: a teoria da evolução das espécies. Segundo Darwin,
“os seres se adaptam por natureza às condições em que
vivem, criando novos hábitos e novas formas”. É a variação
progressiva das espécies. Este
arquipélago é um mundo geneticamente isolado, e as ilhas
só conseguiram permanecer selvagens até hoje porque
suas condições são inóspitas demais para o ser humano.
(Felizmente). Sua história é marcada por 400 anos de
tentativas frustradas de colonização e incontáveis naufrágios.
Oficialmente, a primeira expedição a chegar em Galápagos,
em 1535, era comandada pelo Bispo do Panamá, Don Thomas
de Berlanga. Ele se dirigia ao Peru, mas a corrente
do Panamá arrastou seu navio até aquelas ilhas desconhecidas.
Berlanga e seus homens procuraram água até a exaustão
e só encontraram animais exóticos e lavas vulcânicas.
Quando, finalmente, extenuados, conseguiram obter água
doce, encheram seus cantis e partiram convencidos de
que naquele lugar não havia nada de valor.
ADAPTAÇÃO
E EVOLUÇÃO
Jamais
poderiam suspeitar da riqueza natural que ali se desenvolvia,
diferente e única em cada ilha, escondendo a chave da
evolução.
O isolamento das ilhas proporcionou à natureza
condições ideais para mostrar sua capacidade de adaptação
e evolução. Todos os seres vivos de Galápagos vieram
de lugares e em épocas diferentes; todos passaram
por mutações. As tartarugas gigantes e as iguanas,
por exemplo, ali chegaram há cerca de 150 milhões
de anos.Quando
Darwin esteve nas ilhas, notou a ausência de mamíferos terrestres, o que havia alterado a cadeia natural de
alimentação. Sem predadores e com abundância de alimentos,
animais e aves de Galápagos não aprenderam a identificar
ameaças à sua sobrevivência e vivem até hoje harmoniosamente,
inclusive com aves contemporâneas, como os flamingos
rosa, que anualmente migram do Chile para as ilhas
Floreana e Rábida. Os flamingos têm a coloração rosa
porque se alimentam exclusivamente de um crustáceo
rico em caroteno e abundante nas lagoas dessas ilhas.
No mar está a base da cadeia alimentar que sustenta
toda a vida em Galápagos. Cientistas catalogaram 289
espécies de peixes e descobriram que destas, 70 só
existem ali.
FORMAÇÃO
O
arquipélago é formado por 14 ilhas maiores (só 5 são
habitadas pelo homem), 42 menores e muitos rochedos
que afloram no mar, totalizando 60 formações espalhadas
pelos 7900 km de sua área. Nas ilhas Fernandina e
Isabela ainda há vulcões ativos, e dois deles, em
Isabela, entraram em erupção durante nossa temporada.
Mas não estávamos lá, pois nosso roteiro só incluía
as ilhas Baltra, Plaza, Santa Fé, Española, Floreana
e Santa Cruz.Apenas
7 ilhas estão abertas à visitação, e o Parque Nacional
de Galápagos pode receber no máximo 40 mil turistas
por ano. No entanto, organismos ambientalistas afirmam
que esse número tem sido maior.Cada
ilha tem características diferentes, embora a origem
de todas seja a mesma; as mais antigas ultrapassam
5 milhões de anos. Geologicamente são jovens, seu
solo é formado por cinzas, areia e rochas vulcânicas,
com pedras retorcidas, outras lisas. A areia vai do
branco mais alvo e mais fino aos tons amarelados e
negros. Como muitas rochas são ricas em ferro e se
oxidam em contato com a água, isso produz colorações
diferentes. Cones, crateras submersas, encostas íngremes
contrastam com encostas suaves sem grandes elevações,
castigadas pelo mar e pelo vento. As praias são belíssimas,
de águas límpidas. Uma de nossas visões mais impressionantes
foi a da cratera conhecida como Corona del Diablo,
enorme formação rochosa isolada no mar: sobre o fundo
avermelhado do alvorecer, seu perfil assemelha-se
à coroa de um gigante. Misteriosa e solene. Ali alguns
de nós mergulharam sob o olhar atento de três membros
da tripulação, no bote, e do pessoal que ficou a bordo.
Motivo: a possível presença de tubarões. Naquele momento,
porém, não
apareceu nenhum; eles seriam vistos depois, em outro
mergulho, mas não abocanharam ninguém. Como eu disse,
em Galápagos não falta alimento.
NO
BARCO
Uma das primeiras coisas que fizemos ao embarcar no
Enterprise foi hastear a bandeira do Alerta Cantareira,
porque afinal, um barco que se preza tem a sua bandeira.
Grandes surpresas aguardavam por nosso grupo que,
segundo Gino, o guia, era muito especial. Porque nos
aconteceu de tudo: vimos arraias gigantes, tubarões
e até ajudamos a salvar uma tartaruga em pleno mar,
prisoneira que estava de uma rede com centenas de
anzóis. Apesar da vigilância, ainda existem
piratas por lá.
Pelicanos,
gaivotas e fragatas foram nossos companheiros permanentes,
pousando no barco como
se estivessem em casa. Vimos também muitos golfinhos,
que acompanharam nossa navegação durante quase três
horas, saltando, sempre muito próximos do barco. No
convés, éramos todos crianças deslumbradas e barulhentes
de tanta alegria. No fundo do Enterprise havia uma bolha
com escotilhas que nos permitiam observar sob a água,
e dali podíamos apreciar de muito perto o balé dos golfinhos,
a textura de sua pele e ouvir seu som. Foi de arrepiar!
Um dos pontos mais altos dessa viagem que, na verdade,
pautou-se por muita emoção.
Parte
2
Durante
cinco dias o Enterprise foi nosso lar nessa viagem
no tempo, pois em Galápagos, a sensação de estar em
estreito contato com o princípio da criação era permanente
NAVEGAR
É PRECISO...
Como
todo veleiro, e embora fosse grande e confortável (media
90 pés), acomodando vinte passageiros além da tripulação,
o Enterprise jogava muito, e sempre havia alguém mareado.
Por duas vezes as velas foram içadas: durante uma tarde
e uma noite. Aliás, as noites eram negras e estreladas,
e o plâncton reluzia em contato com o casco, enfeitando
nosso barco como uma aureola; a lua só apareceu no final
da viagem. Voltando: içar velas foi outra emoção, um
ritual solene. Só que aí, o veleiro começou a jogar
pra valer, num terrível desafio ao nosso labirinto desacostumado
a tanto vaivém. Caminhar pelo barco era um exercício
de equilibrismo; descer até as cabines, um feito heróico,
e quase ninguém conseguia ficar nelas além do estritamente
necessário. Apesar
disso, tudo continuava maravilhoso, e o convés foi atrativo
irresistível, dia e noite. As
refeições, fazíamos no que denominamos "a sala
dos espelhos": de um lado as janelas, do outro,
na parede oposta, o revestimento de espelhos repetia
a paisagem externa, onde terra e mar ou mar e céu se
alternavam impiedosamente. A
cozinha era muito boa, embora às vezes estranha ao nosso
paladar. Exceto por alguns felizardos, a quem nada feria
o apetite, a maioria de nós obrigava-se a comer apesar
do estômago revoltado pelo interminável balanço. Era
a receita: com estômago "calçado" (já que
não podíamos calçar o barco), menos enjôo. Em terra,
devido às reverberações do mal do mar, sofríamos o "mareado
de tierra”, como definiam nossos tripulantes. Mesmo
assim, tudo estava "siempre bien".
A
MORADA DOS
PÁSSAROS
As
caminhadas pelas ilhas eram em geral matinais; à tarde,
nadávamos e mergulhávamos. A cada vez, uma paisagem
nova, porque cada ilha é absolutamente única. Formas
e cores as diferenciam, assim como a vegetação exótica.
Em algumas, os rochedos formam imensas falésias onde
os pássaros se aninham. Tínhamos a impressão de estar
no início da Criação. Em
sua maior parte, os animais e aves de Galápagos são
endêmicos -- espécies únicas no mundo que conseguiram
reunir características especiais de adaptação.
Um dos mais charmosos é o piquero de patas azuis
(ninguém até hoje descobriu o porquê dessa coloração).
Na Isla Española eles são milhares e estavam
na época
do acasalamento. Os machos assobiam suavemente
para atrair as fêmeas; quando o namoro se inicia, eles
se movimentam numa espécie de dança, erguendo as patas,
abrindo e fechando as asas. Elas soltam grunhidos. Vimos
também albatrozes, fragatas de peito vermelho, gaivotas,
gaviões, flamingos rosa e o cucuve (um dos mais atrevidos
e amigáveis, que adora água doce e vem bebê-la em nossas
mãos). Outra
ave surpreendente é o dentilhão. Há exemplares em várias
ilhas e em cada uma diferenciam-se pelo formato do bico:
mais longo e forte nos que se alimentam de sementes,
mais curto nos que comem insetos. Um fato curioso: alguns
dentilhões usam espinho de cactus para alcançar larvas
no interior dos troncos. O melhor de tudo, porém, foi
descobrir o quanto as aves de Galápagos são mansas,
dóceis e curiosas. E
sempre havia lobos marinhos. Na Isla Española nadamos
e mergulhamos com eles. Os lobos marinhos formam
a maior colônia de Galápagos. Barulhentos, dorminhocos
e brincalhões, vivem em grandes haréns
incansavelmente guardados pelos machos, que chegam
a ter quarenta fêmeas. O que dá um trabalhão danado.
Como seu olfato é muito desenvolvido, fomos orientados
a não tocar nos filhotes, porque isso afasta as mães,
que não reconhecem mais o cheiro de suas crias e se
recusam a amamentá-las. Pesadões em terra, alguns atingem
250 quilos, na água são graciosos, flexíveis e ágeis,
o que lhes permite dar verdadeiros bailes nos tubarões.
Os “tiburones”, aliás, adoram lobos marinhos,
para comer.
IGUANAS,
LAGARTIXAS E PINGÜINS
As
iguanas, terrestres e marinhas, são totalmente distintas
na coloração, no tamanho
e nos
hábitos alimentares. As terrestres são maiores,
coloridas e solitárias, enquanto as marinhas são escuras
e vivem em colônias. No entanto, todas têm a mesma origem.
O que as diferencia é fruto da própria evolução, segundo
o habitat e o tipo de alimento. A iguana marinha desenvolveu-se
em área de muito vento e sem vegetação, por isso aprendeu
a nadar usando a causa e faz longos mergulhos em busca
de algas. Uma de suas maiores colônias está na Bahia
Gardner, árida, fustigada pelo vento, onde o mar se
quebra violentamente contra as rochas. Ali há um fenômeno
interessante: o Soprador. A força da água é tanta que
ela invade um buraco entre as pedras e sobe a grande
altura, num jato violento, como se estivesse sendo soprada.
Lembra uma erupção vulcânica. A iguana terrestre
alimenta-se sobretudo de cactus. Os cactus, por sua
vez, também sofreram mutação para a preservação de sua
espécie e cresceram muito mais do que em outras partes
do mundo. Vimos também grandes lagartixas, cuja coloração
é de fazer inveja às nossas, pobres desbotadas.Em
Galápagos, apesar do sol e do
clima tropical, também vive um tipo de pingüim
anão, com 35 cm de altura, o segundo menor do mundo
e o único a sobreviver fora de águas geladas. Vê-los
mergular, em loucas acrobacias, foi um prazer que nunca
esqueci, tamanha a felicidade que irradiavam.
POST
OFFICE
O
Post Office, na ilha Floreana, é um lugar histórico.
No passado, era a ponte de ligação entre Galápagos e
o mundo. Criado em 1793, por um inglês, foi durante
muito tempo o único posto de correio do arquipélago.
Os barcos que por ali passavam, deixavam sua
correspondência e levavam a que ali se encontrava, encaminhando-a
a seu destino. Essa prática permanece até hoje, agora
feita pelos turistas: nós, por exemplo, pegamos a correspondência
de brasileiros que haviam passado por lá e deixamos
a nossa. De volta ao Brasil, colocamos algumas cartas
e cartões no correio e outros foram entregues pessoalmente
ao endereçado. Além
disso, nos barris toscos do Post Offlce (as “caixas
de correio"), pouca gente resiste à idéia de registrar
a própria passagem.
VISITAÇÃO
CONTROLADA
A
visitação a Galápagos é rigorosamente controlada pelo
governo, que mantém guias para acompanharem os turistas.
São em geral muito informados a respeito
de tudo o que há nas ilhas, conscientes da importância
desse tesouro que agora,
inclusive, lhes
propicia um modo de sobrevivência. Alguns desses guias
são biólogos. Até a tripulação do Enterprise revelava
grande amor a tudo o que ali vive. No episódio do salvamento
da tartaruga marinha, por exemplo, estávamos em águas
habitadas por tubarões, e mesmo assim, Pedro, o ajudante
de cozinha, não vacilou em saltar ao mar para salvá-la.
Medidas de segurança foram adotadas: além de nos transformarmos
em mil olhos vigilantes, Pedro nadou amarrado a uma
corda. A "tortuga" foi trazida a bordo, examinada,
e constatou-se que só apresentava um pequeno ferimento
provocado pelos anzóis. Foi acarinhada, fotografada
milhões de vezes e devolvida ao mar; e a armadilha recolhida.
Como
os ecossistemas das ilhas são muito frágeis, se não
houvesse fiscalização e acompanhamento seriam destruídos
em poucos anos. Por isso, em terra, os visitantes devem
caminhar nos limites estritos dos cenderos, trilhas
demarcadas no solo; assim, a flora fica resguardada,
e ninguém perturba os donos do pedaço. Quanto a eles,
estão em toda a parte, dentro e fora dos cenderos.
Quando se aninham no caminho dos visitantes, que os
visitantes se desviem, porque eles não arredam pé.
TODO
CUIDADO É POUCO
Quando
Darwin desembarcou em Galápagos não havia mais do que
300 habitantes humanos; em 1992 eram 6 mil, 12 mil em
93 e hoje beiram os 20 mil. Já existe um movimento
dos "lugareños" para que seja proibida a emigração
para Galápagos, e nas ilhas onde há povoação humana,
os limites
de ocupação já estão estabelecidos. A
presença do ser humano causou sérios estragos em algumas
ilhas, e um dos piores foi a introdução de animais domésticos,
como gatos, cães e cabras. Também chegaram
com os navios ratos e insetos, como as moscas. As cabras
devastam a vegetação, que é o alimento das tartarugas,
e estão erradicadas em algumas ilhas; gatos, ratos e
moscas representam outro problema, pois os primeiros
alimentam-se de ovos e filhotes, enquanto as moscas
produzem uma espécie de conjuntivite nos lobinhos do
mar, que os conduz à cegueira e morte porque não conseguem
mais buscar alimentos. Há
ainda incêndios
criminosos, como o que ocorreu em Isabela, em 94, onde
vivem as grandes colônias de tartarugas
gigantes. Assim, todo cuidado é fundamental,
e há leis muito
definidas para que nada altere o equilíbrio desses
ecossistemas.
Nas
ilhas, tudo é intocável. Nenhuma pedra, nenhuma concha,
nenhuma folha ou flor deve ser retirada. Não é permitido
tocar nas aves e nos animais nem alimentá-los (eles
têm alimento de sobra). Produzir ou jogar lixo
é pecado mortal; não se pode nem mesmo fumar nas ilhas
onde não há habitante humano. De Galápagos, a gente
só pode trazer como lembrança a experiência de ver o
que viu, as imagens que registrou. E, no máximo, deixar
as próprias pegadas. Tudo ali deve permanecer como é.
EM
PUERTO AYORA,
O AGITO
Puerto
Ayora é a capital da Ilha de Santa Cruz e um dos centros
comerciais de Galápagos. Uma vila com hotéis e pequeno
comércio, poucos restaurantes e algumas lojas de souvenir.
É passagem obrigatória, e o sintoma disso são os inúmeros
barcos ali ancorados. Em Puerto Ayora, fomos à praia
Tortuga, considerada uma das mais lindas do arquipélago.
Caminhamos 2,5 Km para chegar até ela e outro tanto
na volta. Mas valeu: águas verdes, transparentes, e
infinitas ondas quebrando-se na areia branca. Nenhuma
árvore, nenhuma sombra. O sol, que nunca nos abandonou
durante a viagem, estava lá, direto. No Equador, ele
fica mais perto... Em Puerto Ayora localiza-se a Estação Científica Charles Darwin, onde
há um viveiro de tartarugas gigantes, cujos filhotes
são trazidos e cuidados para serem soltos em suas ilhas
de origem ao completar dois anos. Ali também está a
tartaruga mais famosa do mundo: o solitário Jorge, nascido
em Isla Pinta. É o último de sua espécie, tem 81 anos,
e há todo um empenho para que se acasale: duas fêmeas
foram escolhidas a dedo entre os exemplares da
espécie mais próxima da dele. Mas até agora, "nada".
Se Jorge morre, sua espécie estará extinta. E extinção
é para sempre. Sua teimosa solidão é o exemplo mais
claro da destruição, pelo homem, desses animais enormes
que deram nome ao arquipélago. Aliás, foi em Galápagos,
inspirando-se nas tartarugas gigantes, que Spielberg
criou as feições do ET. Galápagos
quer dizer "sela", e este nome foi dado pelos
espanhóis porque o grande casco dessas tartarugas lembrava-lhes
os arreios de seus cavalos. Durante milhões de anos,
catorze espécies de tartarugas gigantes viveram nas
ilhas, mas correm o risco
de extinção. Eram por volta de 250 mil na época do descobrimento
e hoje não passam de 15 mil. "Especiais
que somos”, também tivemos o privilégio de ver o solitário
Jorge, que costuma desaparecer por longo tempo recolhido
em seu refúgio. Desta vez, estava sumido havia quatro
anos. Mas o que são quatro anos para uma tartaruga?...
Junto a esse refúgio, já praticamente no final da viagem,
li um texto inquietante: "Qualquer coisa que aconteça
a Jorge (singular animal) sempre nos permitirá recordar
que o destino de todas as coisas vivas da Terra está
nas mãos do ser humano". É
para pensar.
Já no avião, de volta, essa inquietação se transformou em pânico: logo
mais estaríamos regressando ao mundo "civilizado",
ao aglomerado humano que avança pisando em tudo, produzindo
lixo, poluindo, violentando, matando, depredando sem
dó. Lancei um último olhar à paisagem de Galápagos.
E uma saudade ancestral apertou meu coração.
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