Iluminar
a Cantareira por quê?
Algumas
diretorias de associações de moradores
estiveram pensando em obter iluminação
pública para algumas ruas ou cruzamentos da
Serra. Um gesto que revela desconhecimento da região,
da situação atual que pede economia
de energia elétrica e, no mínimo, desrespeito
à opção de se viver em harmonia
com a Natureza, com direito a estrelas, coisa que
em São Paulo e em outras grandes cidades não
existe mais. O loteamento Alpes da Cantareira pode
ser citado como exemplo de equilíbrio: não
tem iluminação pública; ela se
limita às portarias e com lâmpadas adequadas.
Só um senão: poderia ter menos lâmpadas.
Preservar
o céu
Já
se iniciaram, ainda que timidamente, campanhas visando
também “preservar o céu” e alertando
para o excesso de iluminação. Uma delas
partiu de iniciativa da Unicamp. Na Serra da Cantareira,
porém, uma região especial, poucos se
dão conta de sua importância e, mais
uma vez, caminha-se na contramão da História.
Patrimônio
da Humanidade, parte importante da Reserva da Biosfera
do Cinturão Verde da Cidade de São Paulo,
a Cantareira é um pouco do que resta da Mata
Atlântica, habitat de inúmeros animais
silvestres e de mais de 200 espécies de aves.
Nós somos os estranhos que aqui chegamos invadindo,
desmatando, encurralando os habitantes naturais, reduzindo
seu espaço e fazendo diminuir sua fonte de
alimento com casas, jardins anacrônicos, cães,
serras, veículos, buzinas, barulho e cada vez
mais luz. Aqueles que caíram por aqui de pára-quedas
acham "chique" e "seguro" ter
luz na rua ou no portão de casa. Mas não
é. Hoje, chique é não ter; e
iluminação não traz segurança.
A luz interfere no meio ambiente, nos hábitos
noturnos dos animais, atrai até a morte os
pequenos insetos, desequilibrando a cadeia alimentar
e, por conseqüência, todo o ecossistema.
É como um jogo de dominós: quando cai
o primeiro, o resto cai em série. Está
na hora de reverter esse processo.
Xiita? Só para quem
não entende
Para
alguns pode parecer xiita essa postura, mas nem por
isso deixa de ser preocupante a invasão que
a Cantareira vem sofrendo. Estou na Serra há
18 anos e só recentemente, com a chegada de
um novo morador, minha rua ganhou uma iluminação
incômoda, que registrada em foto não
reproduz o impacto que na realidade provoca. É
a única da rua, e fico impressionada como os
donos da casa não notaram.
As pessoas chegam por aqui sem saber quase nada sobre
esta região. A Cantareira sofreu um boom e
já está sendo ocupada além do
seu limite. Pior: mal ocupada. Parte dessa responsabilidade
se deve às imobiliárias, que atuam por
aqui há muito tempo, mas a maioria só
se preocupa em vender terrenos; já as construtoras
só querem construir.
É o mesmo tipo de gente que compra um cão,
acha-se "dono" dele e o submete ao adestramento,
para que fique feroz. Gente que chuta seu cão,
que "ostenta" araras em cativeiro. Sinto
pena dos cães adestrados. Sua inocência
e sua alegria foram agredidas para que ele possa servir
ao ser humano. O que ninguém nota é
que o cão defende naturalmente quem o trata
com carinho. Não é preciso oprimi-lo
nem enfurecê-lo. E se, de repente, um dia ele
ataca alguém da casa, é considerado
mau e, certamente terá seus dias contados.
Progresso
x desenvolvimento sustentável
| |
|
Hoje,
os novos moradores, com algumas exceções,
chegam arrogantes, trazendo hábitos urbanos,
medos urbanos, desinformados das condições
especiais da Serra, dos cuidados que se deve
tomar para não agredir. Atua-se em nome
do "progresso", mas há um limite:
é quando o progresso destrói o
que já está cada vez mais raro.
Aliás, este conceito vem sendo superado
pelo de desenvolvimento sustentável.
Só falta colocar em prática. As
matas são raras, e a Serra da Cantareira
faz parte do já estreito Cinturão
Verde que deixa São Paulo respirar. Seu
ecossistema tem sido abalado pela prevalência
dos interesses particulares, ou mesmo governamentais,
estreitos, míopes e gananciosos. Tenha
como exemplo os embates dos ambientalistas com
a própria Dersa na questão do
Rodoanel. |
Alameda
dos Pintassilgos, Alpes da Cantareira
|
|
Agora, além de se combater os desmatamentos
e ocupação indiscriminada que causam
prejuízos à Serra da Cantareira é
preciso que se instale mais consciência a
respeito da iluminação. Muitos vieram
para a Serra querendo viver em harmonia com a natureza,
sob um céu estrelado. Se as diretorias de
associações de moradores da Serra
continuarem iluminando as ruas sob o beneplácito
do poder público, ou permitirem luz inadequada
diante dos portões, este céu corre
o risco de se diluir diante de nossos olhos. Noite
semi-clara, sem estrelas.
Luz
não é a melhor solução
Muitos alegam que a luz evita bandido. Mentira. A
luz atrai bandido. Se você mora num local onde
não há iluminação pública,
você se habitua ao seu lugar, sabe se movimentar
nele com mais naturalidade do que qualquer estranho.
Se você o ilumina, vai facilitar a mobilidade
de estranhos, porque sob a luz eles conseguem se situar.
Iluminar, muitas vezes, é criar condições
de igualdade entre o morador e o estranho. Pense nisso.
Se
iluminar fosse solução, São Paulo
não teria assaltos. Além disso, vivemos
um momento em que fazer economia é mais do
que uma necessidade, é obrigação.
Para quem acha necessário ter luz nos portões,
aqui vai uma sugestão: adote o sistema de censor
com célula fotoelétrica para iluminação
automática quando alguém se aproxima.
Mas é preciso calcular corretamente o raio
de alcance da célula fotoelétrica, senão
- como, aliás, já está acontecendo
- cada casa é um flash...
|
| Rio
Tietê: muita luz e pouca vida |
E mais: utilize lâmpada amarela, porque a branca
atrai insetos e os leva à morte, gerando desequilíbrio
no ambiente. Você estará agindo de modo
ecologicamente correto e sem incomodar ninguém.
Isabel Raposo
|