Fazendo do sol nosso aliado
Texto Isabel Raposo – Fotos: Celso Heredia

 
 

 

Passo decisivo para o desenvolvimento sustentável, o uso de energia solar já está na lei de várias cidades brasileiras que caminham na direção da saúde ambiental. São exemplos e inspiração  também para um novo modo de se exercer a cidadania.


 

Está no artigo 225 da  Constituição Federal do Brasil: “todos têm direito ao meio ambiente ecologicamente equilibrado, bem de uso comum do povo e essencial à sadia qualidade de vida, impondo-se ao poder público e à coletividade o dever de defendê-lo e preservá-lo para as presentes e futuras gerações”.
Como se sabe, nem tudo o que está na Constituição é prática na vida dos cidadãos. Uma das mais graves questões ambientais hoje, o aquecimento global , que já assoma como realidade e embora esteja no bojo dos debates, continua distante da maioria. Muitos ainda desconsideram seus reais perigos assim como não atribuem a devida  importância ao suporte político nem ao gesto consciente de cada habitante deste nosso planeta tão mal amado e tão ameaçado.
Dia destes li a seguinte frase “deixe um cantinho deste planeta para mim”. Vinha junto com  a foto de um bebê que dormia aninhado na sola de um chinelo reciclado, feito de pneu. Bem a propósito do artigo 225 da nossa Constituição. Defender e preservar. Nada distante da importância da adoção de novas atitudes no dia-a-dia. Uma delas, por exemplo, já se revela indispensável quando se fala em consumo consciente: o uso da energia solar.
Veja: se os quase 11milhões de habitantes de São Paulo tomassem seu banho usando aquecedor solar, a cidade deixaria de emitir por ano 496.000 toneladas de CO2 e poderia fazer uma poupança anual de 4,9 bilhões de reais com a economia de energia, informa a ABRAVA - Associação Brasileira de Refrigeração, Ar Condicionado, Ventilação e Aquecimento.
Seria mais saúde para as finanças e para o ambiente.

  Opção sensata e inteligente

O aquecimento global suscita cada vez mais discussões, e alguns cientistas não o atribuem à ação humana e sim  à atividade do sol, simplesmente. Mas vejo como  falácia querer culpar o sol, que não  é nosso inimigo; ao contrário, é fonte de vida. Nossos mais ferrenhos inimigos estão  mesmo na própria raça humana.
Atitudes mais sensatas e inteligentes estão comprovando que  o sol pode ser visto como aliado de vital importância. Um dos defensores dessa idéia, que a colocou em prática, é o engenheiro eletrônico e professor Augustin Woelz, que coordena a ONG Sociedade do Sol (SoSol) instalada desde 1999 no Cietec (Centro Encubador de Pesquisas Tecnológicas da USP).
Sua ação contribuiu para que na cidade São Paulo o uso de energia solar ganhasse a força de lei.

Sancionada em julho de 2007 pelo prefeito Gilberto Kassab, a Lei municipal 14.459/2007 obriga casas e apartamentos com 4 ou mais banheiros (incluindo lavabos) a instalar aquecedores solares; os edifícios públicos  assim como os industriais, clubes, hospitais e hotéis, entre outros,  também  estão  incluídos; e as edificações, novas ou não, que tenham piscina  aquecida. A tecnologia termosolar - dos aquecedores solares - tem como principal aplicação aquecer a água sem a necessidade de se utilizar outra fonte de energia além da própria luz do sol. As vantagens dessa tecnologia repercutem diretamente em benefícios socioambientais, na geração de empregos, na economia nacional de energia elétrica e na redução da conta de luz.
Este sistema de aquecimento possui dois componentes básicos: o coletor e o reservatório térmico. O coletor é instalado sobre o telhado e absorve o calor, aquecendo a água que circula em seu interior. A água aquecida é armazenada no reservatório, cujo tamanho  varia conforme a necessidade de consumo, e então é destinada ao banho.

O país do sol
O Brasil dispõe de enorme capacidade de aproveitamento da energia solar: quase toda sua área recebe mais de 2200 horas de insolação com um potencial equivalente a 15 trilhões de MWh, correspondente a 50 mil vezes o consumo nacional de eletricidade. Mesmo assim aqui ainda se investe pouco nesta fonte de energia infinita. Grande parte das residências brasileiras é refém,  ou do chuveiro a gás, gerador direto de gases de efeito estufa, ou do chuveiro elétrico, líder absoluto em nosso país. Embora seja um equipamento de baixo custo inicial, exige grande consumo de energia ao longo de sua vida útil.
O Brasil utiliza mais de 6% de toda a eletricidade que gera para aquecer água no setor residencial,  e os chuveiros são os maiores responsáveis por este consumo, representando enorme problema econômico e ambiental: a cada chuveiro instalado com um valor a partir de R$ 30, 00 o setor elétrico brasileiro tem que investir entre  2 e 3 mil  reais para fornecer a nova energia demandada.

Tempo esgotado

O uso de chuveiros elétricos para aquecimento de água é disseminado no Brasil como em nenhum outro país. Esta prática se intensificou na década de 70, com a crise do petróleo e com o incentivo ao uso de equipamentos elétricos. Nesta mesma década surgiram os grandes empreendimentos hidrelétricos. Assim, havia excedente de energia no mercado e nenhuma preocupação quanto ao uso de chuveiros ou de qualquer outro aparelho consumidor de energia elétrica.
Como resultado, os chuveiros elétricos foram produzidos em larga escala, com baixo custo inicial e traziam ainda outra vantagem: a praticidade na instalação. De acordo com a ELETROBRAS/PROCEL, estão presentes em cerca de 91% das residências, com  maior concentração nas regiões Sul, Sudeste e Centro-Oeste.  Em longo prazo, porém, essa solução tecnológica acarretaria problemas para o setor de energia elétrica nos horários de ponta, quando a demanda atinge seu pico máximo. Este “longo prazo” se esgotou. É hoje.
Existem fatos já incorporados pela sociedade e, por isso, aceitos passivamente. Um deles é que a maioria dos códigos de obras obriga o uso de algumas tecnologias insustentáveis. Por exemplo, até 2007 as novas edificações eram obrigadas a preparar suas instalações elétricas para receber o chuveiro elétrico e a deixar tubulações de espera para o uso de gás. Quase ninguém pensava em aquecedor solar. Uma edificação como era projetada na maior parte do Brasil, praticamente lhe fechava as portas por um período 25 a 30 anos, correspondente à vida útil de tais instalações. Só que as medidas em relação ao aquecimento global  urgem.

Usinas termoelétricas
Os chuveiros elétricos respondem pela construção e operação de 18% de todas as usinas construídas no Brasil, ou seja, cerca de 12.600 MW do uso da potência no horário de ponta, quando todas as termelétricas são acionadas para gerar energia necessária ao nosso banho de cada dia.
Em relação ao funcionamento das termelétricas, dois pontos relevantes preocupam especialistas do mundo inteiro: o enorme volume de água necessário à geração do vapor indispensável ao acionamento das turbinas e a poluição que emana do sistema gerador quando em operação, proveniente da queima do diesel, do óleo combustível e do gás natural.

Benefícios do uso da energia solar
A obrigatoriedade da instalação de aquecedores solares em edificações não é uma idéia nova. Já em 1980 foi instituída  em Israel, primeiro país do mundo a adotar tal política. Desde então, muitos  outros países, inclusive o Brasil, e muitas cidades a vêm adotando como solução necessária e definitiva.
Os aquecedores solares de água apresentam amplas vantagens ambientais, econômicas e sociais. Como substitui a hidroeletricidade e combustíveis fósseis, cada instalação de aquecedor solar reduz de uma vez – e para sempre  –  o dano ambiental associado às fontes de energia convencionais. Não emitem gases tóxicos que contribuem para a poluição urbana, melhorando a qualidade do ar, não afetam o clima global por não emitirem gases de efeito estufa e não geram lixo radiativo, herança perigosa das usinas nucleares. Também apresentam vantagens sociais como a redução da conta de energia elétrica e a geração de empregos por unidade de energia transformada. Para se ter uma idéia, pode-se considerar que a produção anual de um milhão de m² de coletores gera aproximadamente 30 mil empregos diretos descentralizados.

O uso da tecnologia solar é a energia mais democrática de todas, justamente por ser pensada como um sistema híbrido, ou seja, o aquecedor solar  é sempre acompanhado de outra tecnologia, chuveiro elétrico ou aquecedor a gás. Um sistema de aquecimento solar bem dimensionado pode suprir mais de 70% da demanda de água quente durante o ano, e os outros 30% que representam os dias nublados ou chuvosos é que são supridos por uma tecnologia convencional.
No caso de São Paulo alguns alegam que a antiga “capital da garoa”  não tem sol. Se a superfície da cidade (1524 km2) fosse toda coberta por aquecedores solares, a energia gerada seria capaz de produzir cerca de 50% de todo o consumo de energia elétrica do Brasil.
Em muitos outros países, menos ensolarados que o nosso,  já se sabe que os sistemas de aquecimento solar são uma alternativa excelente para fornecer a água quente para os setores residenciais, de comércio e de serviços.  Os países líderes no seu uso na Europa são Alemanha e Áustria, com muito menos insolação do que qualquer região do Brasil, inclusive São Paulo, e com índices de difusão superiores aos nossos.   Finalmente, o aquecedor solar pode proporcionar economias anuais de energia entre 40 e 70% conforme o tamanho do sistema, em qualquer região do Brasil. 
Seu uso representa um ato de desenvolvimento e racionalidade sob todos os aspectos. Economiza-se energia, economiza-se água, evolui-se para uma cultura solar. Sadia.

Quando integrado ao projeto inicial de uma construção,  aumenta  entre 0,5 a 1% o custo da edificação (segundo a APCE-Associacion de Promotores Construtores de Espana). Mas valoriza o imóvel. Se a instalação do sistema de aquecimento solar for inserida após conclusão da obra, haverá um aumento no custo em torno de 30 a 50% do seu valor real.

As economias que o sistema proporciona pagam o custo do equipamento em menos de três anos. Cada morador de uma família deixará de gastar na vida útil do equipamento solar pelo menos R$ 10 mil reais. E a economia que todos os moradores do Brasil juntos fariam, se cada um de seus 185 milhões de habitantes optasse por tomar seu banho com energia solar, seria de R$ 1,7 trilhões.

Não se pode esquecer que, além do benefício financeiro existem outros:  além de economizar para o país um investimento de mais R$ 10 mil na geração, transmissão e distribuição de energia,  cada família que usar o aquecedor solar evitará a inundação de 224 m2 de área verde e fértil que seria destinada à construção de barragens. Não é difícil imaginar o quanto de área verde seria preservado ; por fim, estará protegendo o ambiente e contribuindo de fato para a redução das mudanças climáticas.

E o item mais importante: o aquecedor solar é o único eletrodoméstico que produz energia ao invés de consumir.

A Sociedade do Sol
e o Aquecedor Solar de Baixo Custo


Há mais de seis anos Augustin Woelz  atua com o Aquecedor Solar de Baixo Custo (ASBC) um projeto que permite a construção de um equipamento para aquecer água com energia solar utilizando apenas materiais simples e baratos, encontrados em lojas de materiais para construção. Este aquecedor foi patenteado pela SoSol, mas seu diretor abriu mão da patente visando a rápida divulgação dessa tecnologia no país. O objetivo é disseminar a utilização da energia solar no aquecimento de água para cerca de 32 milhões de lares brasileiros. A Sociedade do Sol também trabalha em outros projetos de cunho socioambiental, como forno solar e reuso da água do banho para descarga.

Barreiras de um pensamento arcaico
Segundo o físico ambientalista e pesquisador associado ao Instituto Vitae Civilis, Délcio Rodrigues, uma das principais barreira à adoção em larga escala dos aquecedores solares está na “ausência de normas que proponham a instalação do termosolar”. Durante a construção ou reforma das moradias não existem orientações para preparar uma infra-estrutura favorável à instalação de aquecedores solares, onde o morador teria opção além do chuveiro elétrico. Tais orientações que deveriam fazer parte do código de obras municipais, poderiam criar novo hábito entre os construtores, arquitetos e moradores no uso da tecnologia solar. A cidade de Barcelona, por exemplo, que  desde agosto de 2000 obriga a instalação de coletores termosolares em novas edificações, ou em reformas de porte, viu a instalação destes saltar de 1,1 m2/mil habitantes para 13 m2/mil habitantes em pouco mais de 3 anos.

Outra barreira, e igualmente densa, é o desinteresse do setor elétrico. Rodrigues prossegue: “As empresas de distribuição de eletricidade não têm motivação econômica para implementar programas de substituição do chuveiro por aquecedores solares pelo fato de que tal ação implicaria perda de faturamento nas empresas de energia elétrica que têm como objetivo vender eletricidade”.
Para sanar as dificuldades é necessário o envolvimento dos diferentes níveis de governo, de fabricantes, universidades, organizações não governamentais com iniciativas que incluam programas educacionais e eventos para conscientização, assim como a atuação de agências financiadoras. O papel dos bancos no desenvolvimento de tecnologias limpas, como é o caso do aquecedor solar, é fundamental, pois eles têm contato direto com os consumidores, representando forte canal de informação e de acessibilidade ao abrir financiamentos específicos.

A caminho da cultura solar
A experiência tem mostrado em todo o mundo que o suporte político é importante no desenvolvimento da energia solar térmica.  E aqui  o Professor Augustin ainda não se deu por satisfeito, já que na cidade de SP a lei não inclui as construções populares , o que não ocorreu em Birigüi, o primeiro município brasileiro a aprovar uma lei municipal que, desde 2006,  obriga a instalação de sistemas de aquecimento solar em conjuntos habitacionais destinados à população de baixa renda.

Cidades como  São Paulo, Rio de Janeiro e Belo Horizonte  já têm leis municipais sancionadas além das estaduais. E 60 outras cidades brasileiras estão com projetos em tramitação.
A despeito de diferentes  textos nas leis, o  uso de aquecedores solares começa a ganhar espaço no Brasil: em 2006 eram mais de 600 mil residências; hoje são perto de 750 mil. Com os aquecedores solares instalados, o  Brasil já está economizando quase 1 bilhão de reais em investimentos na geração de energia, segundo estudo apresentado pelo coordenador da iniciativa Cidades Solares, Carlos Faria, também diretor do Departamento Nacional de Aquecimento Solar  (DASOL) da ABRAVA .  “Inserindo oficialmente o aquecimento solar no planejamento energético federal, estadual e municipal, temos condições de economizar investimentos da ordem de 40 Bilhões de reais até 2030, valores estes que poderiam ser utilizados em outras áreas prioritárias como a própria habitação e educação, por exemplo”, comenta Faria. “O problema seria ainda maior se computarmos os custos sociais e ambientais da geração de eletricidade provocados  pelo alagamento de terras férteis, pelo deslocamento de populações destas áreas e pelos impactos ambientais gerados”, ele completa.

O uso da energia solar terá papel importantíssimo no futuro breve, suprindo necessidades humanas com qualidade ambiental. Mas ainda as barreiras para sua difusão em escala significativa no Brasil persistem. Nesse sentido, "os projetos de lei de Belo Horizonte, Porto Alegre e São Paulo atacam esta questão e abrem um grande caminho para o crescimento do uso da tecnologia solar no Brasil", afirmou o especialista Délcio Rodrigues, "Para as famílias de baixa renda, o uso de aquecedores solares pode ajudar tanto quanto  a Bolsa Família do governo federal, já que permite economia mensal superior a  R$ 50,00 durante 20 anos ao menos. Por isto deveriam ser utilizados por todos os níveis de governo como medida de distribuição de renda", conclui Rodrigues .
O aquecedor solar é uma tecnologia que proporciona  benefícios aos usuários, ao país e ao planeta.  Na prática, um dado comportamental se altera radicalmente: o próprio consumidor de energia passa a produzi-la. Optar por ele é um ato de inteligência  e de cidadania.

Para saber mais
Cidades Solares: www.cidadessolares.org.br
SoSol: www.sociedadedosol.org.br
Vitae Civilis, Desenvolvimento, Meio Ambiente e Paz: www.vitaecivilis.org.br
ABRAVA: www.abrava.com.br
“Um banho de sol para o Brasil. O que os aquecedores solares podem fazer pela sociedade e meio ambiente” –  de Délcio Rodrigues e Roberto Matajs

A geração de energia descentralizada e em pequena escala pode contribuir de modo significativo para a proteção do clima global e exercer importante papel na melhoria da qualidade de vida. Neste sentido, os aquecedores solares são particularmente promissores: a tecnologia é uma das mais simples e baratas fontes de energia renovável.
O aquecedor solar é o único eletrodoméstico que produz energia ao invés de consumir.