JORNAL DA SERRA DA CANTAREIRA

 

 
       




 

 

 
 


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Brincando de Deus: plantio de árvores para recriar a Mata Atlântica

A agonia da Serra da Cantareira - por Rogério Cunha

 

 


A FLORESTA VAZIA

"Muitos grandes animais já foram ecologicamente extintos em grandes áreas de floresta neotropical [Mata Atlântica e Floresta Amazônica] (...) Nós não devemos deixar uma floresta cheia de árvores nos enganar que tudo esteja bem.

Muitas destas florestas são "Mortos vivos" (Janzen, 1988), e, embora satélites passando sobre nós possam reconfortantemente registrá-las como florestas, elas estão vazias de muito da riqueza faunística valorizada por humanos"

K. Redford, The empty forest

 

 

Ambiente

Brincando de Deus: plantio de árvores para recriar a Mata Atlântica
por Germano Woehl Jr. (*)

 



Mesmo diante de um sonoro NÃO da Ciência e de exemplos bastante convincentes contrários à idéia, tem-se difundido que o ser humano pode reproduzir ou restaurar a integridade de um ecossistema tropical tão complexo como é a Mata Atlântica através do plantio de algumas mudinhas de árvores. A idéia beira a ficção científica. É claro que não podemos deixar de valorizar o esforço das pessoas que, na mais pura das boas intenções, querem ajudar a todo o custo na reparação do dano causado. Embora isto seja uma forma de satisfação pessoal, de observar os resultados em curto prazo e viver da ilusão de que um ecossistema seja uma simples plantação de árvores.

No entanto, nesta inocente forma de “ajudar” a natureza pode-se, em vez disso, prejudicá-la, contaminando o ecossistema com a introdução de espécies de outros lugares – uma mesma espécie de árvore, por exemplo, pode apresentar variações genéticas em suas populações de diferentes regiões, às vezes, separadas por uma distância não muito maior do que 100 km.

Impedir o desmatamento do que resta

Então, o que devemos fazer para salvar a Mata Atlântica? Devemos ficar de braços cruzados e resistir à tentação de plantar algumas mudinhas de árvores? A resposta é que podemos, de forma mais racional, usar nossos esforços em outro sentido: impedir o desmatamento do que resta. Ou seja, existem maneiras mais inteligentes de ajudar a natureza do que plantar árvores. Mas, antes de prosseguir, devemos indagar o seguinte: quando se diz “proteger a Mata Atlântica”, afinal de contas, queremos proteger a Mata Atlântica de quem? Quem ameaça a Mata Atlântica? São os ET’s? Não, evidentemente. É o ser humano que tem levado a Mata Atlântica a esta situação de quase extermínio. Então, a Mata Atlântica deve ser protegida de nós mesmos. Não mexer mais nas áreas remanescentes é uma das medidas mais óbvias, mais concreta, em prol de sua possível recuperação. Embora esteja quase aniquilada pelo ser humano, a Mata Atlântica tem uma extraordinária força de auto-regeneração, desde que, é claro, ainda ocorra uma área bem preservada nas proximidades com toda a sua integridade em termos fauna e flora.

Mata Atlântica não é só árvore...

A situação do ecossistema Mata Atlântica é mais ou menos a seguinte: restam em torno de 15% em Santa Catarina (e 7% no País), sendo menos de 1% de áreas bem preservadas (nos grotões, locais de difícil acesso, onde o ser humano não conseguiu destruir) e o restante de florestas secundárias, ou seja, que já foram destruídas e naturalmente estão se recuperando. E que força natural é essa capaz de replicar uma área devastada no entorno das florestas remanescentes? São os bichos (dispersores das sementes), insetos (agentes polinizadores), os ventos, os micro-organismos decompositores etc., ou seja, tudo o que faz parte da própria Mata Atlântica, que como se nota não é composta apenas de árvores.

A força da natureza

Só para dar um exemplo da força da natureza, um único pássaro, um sabiá-laranjeira, é capaz de plantar em um ano 100 mil sementes de árvores como o palmito e a canela - e, se considerarmos sementes minúsculas como das figueiras e embaúbas, esse número anual chega aos milhares. Ou seja, um único pássaro, ou até um morcego, é capaz de produzir mais mudas de árvores nativas do que a produção anual dos maiores viveiros e muito mais do que qualquer programa de distribuição de mudinhas de árvores, e sem custar nenhum tostão (é bom lembrar que uma muda de árvore não é uma árvore adulta, ou seja, das milhares de mudas, somente algumas se tornarão árvores adultas). Além disso, os animais não discriminam outras plantas, como os cipós, por exemplo, que na Mata Atlântica são tão importantes quanto as árvores - existem cipós cujos frutos são apreciados por uma parcela significativa da fauna, mais até do que muitas árvores consideradas bagueiras (baga = fruto muito apreciado pela fauna). Sem falar das plantas aéreas que vivem fixadas nas árvores, como as bromélias, orquídeas, cactos-de-árvore (ripsalis) etc., cada uma com sua função ecológica tão importante quanto as árvores que as suportam. Portanto, para que a floresta se “regenere” espontaneamente, basta proteger a área. Evitando, inclusive, que seu solo seja pisoteado.

Transformar a natureza à nossa imagem e semelhança: gesto equivocado

Em toda a extensão da Mata Atlântica no Brasil, temos mais de 20 mil espécies de plantas e 2160 espécies só de animais vertebrados (mamíferos, aves, répteis, anfíbios e peixes). Espécies de animais invertebrados, como os insetos, por exemplo, temos aos milhares, nas mais bizarras formas. E todos estes organismos vivem de maneira interdependente. Portanto, só o plantio de árvores – a Mata atlântica de Santa Catarina, por exemplo, tem 714 espécies – não resolve o problema. Cabem aqui as palavras de um dos mais renomados botânicos brasileiros, o Prof. Dr. Ademir Reis (UFSC): "precisamos nos desvincular dessa idéia de sermos pequenos deuses, transformando a natureza à nossa imagem e semelhança"; e da Profa. Dra. Ana Claudia Araújo (Univali), no ano passado, em artigo publicado em jornais, “plantar algumas espécies, mesmo que nativas, pode nos satisfazer, satisfazer nosso ego, nossa visão, mas de forma alguma restaura o bem que foi perdido”.

Evidentemente, devemos incentivar o plantio de árvores nativas da Mata Atlântica para fins comerciais, paisagismo, proteção de lagos artificiais, margens de rios (distantes de fontes de sementes), mas jamais confundir esta “plantação de árvores” com o “ecossistema Mata Atlântica”. Definitivamente, a Mata Atlântica não é uma simples plantação de árvores! Para salvarmos a Mata Atlântica, todo o nosso empenho deve ser no sentido de assegurarmos a preservação do que restou deste exuberante ecossistema, um dos mais importantes do mundo em termos de diversidade de vida, de acordo com dados científicos.

O que restou é uma área tão pequena cuja exploração não vai resolver os problemas econômicos de ninguém. Se a destruição de 93% não acabou com a miséria, a destruição dos 7% restantes (que é a situação atual da Mata Atlântica no País), com certeza, também não. Muito ao contrário, aumentará ainda mais a miséria na zona rural, agravando os problemas com a estiagem, e inviabilizará o desenvolvimento de nossas cidades, uma vez que as florestas garantem a produção de água, em abundância e qualidade.

 
(*) Germano Woehl Jr. é pesquisador titular e Coordenador de Projetos do Instituto Rã-bugio para Conservação da Biodiversidade.
www.ra-bugio.org.br