Autêntica fazenda colonial
do século 18, o Solar das Andorinhas dá
as boas vindas no melhor estilo: logo na entrada uma
tabuleta afirma que “este chão é abençoado,
serão felizes todos os que aqui pisarem, porque
o meu sinhô era bom”. Quem assina é a
escrava Clemilda, que morreu aos 120 anos, em 1956.
Certamente ali e, óbvio, não mais como
escrava.
Esta frase iluminou minha chegada ao casarão
colonial, enorme, puro, pleno de histórias
– algumas conhecidas, outras perpetuadas no silêncio
de suas grossas paredes.
De tudo brotam as energias de outros tempos e ecoam
em nosso presente. Emociona chegar, encher os olhos
com o branco e o azul que imperam na fachada, com
as cores da terra e com a elegância das palmeiras
centenárias. Emociona saber que por ali passaram
tantas vidas, viveram-se amores, mesclaram-se suor,
lágrimas e risos.
A força da presença dos escravos, e
a antiga Fazenda Duas Pontes (o nome com que foi criada)
teve 80, não turva seus ares com pesadas lembranças
de sofrimento, como ocorre em tantos outros lugares.
Não. Ali a luz é permanente, e a atmosfera
é leve. E promovem uma espécie de reverência
e de muita curiosidade sobre a história não
só do casarão, como das outras construções,
algumas de influência italiana, já que
os imigrantes também deixaram ali a sua marca.
Patrimônio
Histórico
As edificações do Solar das Andorinhas
estão preservadas e desde 1994 são tombadas
como Patrimônio Histórico pelo CONDEPACC
(Conselho de Defesa do Patrimônio Cultural de
Campinas). A fazenda foi uma das maiores produtoras
de café do Estado de São Paulo e hoje
é um dos hotéis mais completos do Brasil,
com 35 anos de atividade. São 240.000m²
de área verde, muita paisagem e um complexo
voltado ao lazer, com alta dose de cultura. Seu endereço:
km 121 da rodovia que liga Campinas e Mogi-Mirim,
a apenas uma hora de São Paulo.
A
longa trajetória
A Fazenda Duas Pontes destacou-se na agricultura cafeeira
da região, chegando a produzir cerca de 100.000
sacas ao ano.
Depois da abolição da escravatura os
italianos assumiram o trabalho de plantar, colher
e embarcar o café nas estações
da Companhia Mogiana de Estradas de Ferro, cujos trilhos
correm paralelos à fazenda. Quando parte de
suas terras foi adquirida em 1971, pelo engenheiro
Roberto Ceccarelli, ela já havia sido subdividida
e passado pelas mãos de vários proprietários.
Estava em ruínas. Ceccarelli e sua esposa Lúcia
empenharam-se em restaurar as edificações,
conservando seu estilo original e, pioneiramente,
idealizaram ali um Hotel Fazenda, agora sob o nome
poético de “Solar das Andorinhas”.
Os principais locais históricos construídos
ao longo do tempo estão lá: as ruínas
da senzala, a casa grande, com paredes de 80cm de
largura, as casinhas dos colonos, a capela, a escultura
de Cristo datada de 1806, a roda d’água, a
casa de máquinas, onde está sendo reorganizado
o museu. No jardim da entrada, palmeiras imperiais
e um magnífico portão. Cada palmeira
foi plantada para comemorar um novo ano de colheita,
e o portão de ferro batido impunha os limites
entre a casa grande o restante da propriedade. Estão
lá também parte do calçamento
das antigas estrebarias, as ruínas da serraria
e do moinho de fubá, o caramanchão –
ou namoradeira – aquele mesmo, do tempo em que o namoro
se dava sob estrita vigilância. Cheio de simbologia.
E ainda continuam lá folhas dos livros de contabilidade
da época dos italianos, escritas com caneta
de bico de pena e intactas. Inesperadamente, entre
outras preciosidades – num canto da casa de máquinas
– cartas emolduradas de Mário de Andrade para
Lúcia Fanele Ceccarelli. Ela havia sido sua
aluna e se corresponderam entre 1935 e 1944. Dona
Lúcia foi proprietária do Solar das
Andorinhas até julho de 2006, quando morreu
aos 97 anos.
... E enfim, a cozinha dos escravos. Mágica!
É ali que os hóspedes hoje tomam café,
fazem amizade, trocam idéias. As paredes conservam
a fuligem dos velhos tempos (não podem ser
pintadas, devido ao tombamento como Patrimônio
Histórico e Cultural). O contraste com todo
o resto pega fundo. No centro, o mesmo fogão
de enormes bocas e as vasilhas de ferro onde se cozinhava
a comida dos escravos. A atmosfera é misteriosa,
sobretudo à noite, na hora do chá –
uma deliciosa fusão de ervas colhidas na fazenda
e preparadas por Aracy e Lu – sorvido em pequenos
goles ao sabor de histórias e mistérios
da fazenda. Foi parada obrigatória para mim.
Após a morte de Lúcia Ceccarelli, o
hotel passa por uma reestruturação,
mantendo, porém, como prioridades o bem-estar
de seus hóspedes e a própria história,
instigante, impregnada nas paredes e nas terras do
Solar.
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